Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Sobre a situação do Afeganistão para além dos maniqueísmos


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Nas redes sociais, “todos têm opinião sobre tudo”. Evidentemente, o direito de se expressar na esfera pública é justo e necessário.

Nesta “ágora digital”, parece que a pauta do momento é a volta do Talibã ao poder no Afeganistão, vinte anos após a invasão estadunidense ao país.

Para formular um posicionamento sobre determinada temática, é fundamental que o indivíduo tenha acesso a informação de qualidade (quanto maior o número dessas informações, melhor). Pois bem, em relação às questões geopolíticas, praticamente a única referência que o grosso da população dispõe está na chamada “grande mídia”: Folha de São Paulo, Rede Globo, Veja e mais alguns poucos veículos.

Sem exceção, estes jornais, revistas e emissoras, sob o ponto de vista geopolítico, estão a serviço da agenda externa dos Estados Unidos. Logo, construíram a narrativa de que a presença estadunidense no Afeganistão visava, candidamente, combater células terroristas apoiadas pelo Talibã e libertar a população do domínio desse grupo fundamentalista islâmico, conhecido pela extrema violência contra as mulheres (tanto física, quanto simbólica).

Nos noticiários, a empreitada de Washington em território afegão assumiu contornos de um épico hollywoodiano, a partir do maniqueísmo “bem” (Estados Unidos) versus “mal” (Talibã). Porém as inúmeras atrocidades cometidas pelas tropas estadunidenses ao povo afegão (estupros, assassinatos, tortura, violência sexual, etc.) foram estrategicamente ocultadas nas matérias da imprensa hegemônica.

Diante desse quadro de mais uma invasão imperialista, é plausível concluir que o Talibã representa a legítima resistência ao invasor ocidental? A salvação do povo afegão?

Ora, não se combate uma interpretação geopolítica simplista (como a feita pela grande mídia) com outra interpretação geopolítica simplória e maniqueísta. Se os Estados são o “mal” (em verdade, são mesmo), isso não significa que o Talibã seja o “bem”. Aliás, o fanatismo religioso, a misoginia, o ódio à ciência e o negacionismo em relação a Covid-19, que caracterizam o Talibã, encontram fortes paralelos no bolsonarismo.

Pensar que o Talibã representa a resistência de um povo oprimido ao imperialismo é pueril ou coisa de misógino enrustido. Demonstra analfabetismo geopolítico. É pensar que o “inimigo de meu inimigo” é, automaticamente, “meu amigo”. Em análises sérias não cabem esse tipo de equívoco.

Como geralmente a mídia esgota um acontecimento geopolítico em sua imediatidade, ou seja, escamoteia sua história, boa parte do público desconhece que, o que hoje conhecemos como Talibã, tem sua origem em grupos que foram armados, justamente, pelos Estados Unidos, com objetivo de combater a influência soviética no Afeganistão, quatro décadas atrás. Na época da Guerra Fria, Washington não se furtou em fazer alianças com o fanatismo religioso para combater o que classificavam como “perigo comunista”.

Além do mais, o Talibã ainda contribui para aumentar o imaginário ocidental islamofóbico. Suas ações são utilizadas para justificar o falacioso discurso que considera o islã como uma religião inerentemente violenta. Trata-se de julgar o todo pelas partes. Seria algo como considerar que a bancada evangélica no congresso brasileiro, e todo seu ódio às minorias, representa todos os cristãos.

Também é importante não fazer como a grande mídia e colocar no mesmo balaio do “extremismo islâmico” grupos como Talibã, Hamas e Hezbollah. Enquanto os dois últimos representam a legítima resistência muçulmana ao imperialismo; o primeiro, como já dito, é uma organização fundamentalista, cujos únicos compromissos são com seus interesses e devaneios.

Obviamente, denunciar o Talibã (ou não vibrar com suas ações misóginas) não significa apoiar os Estados Unidos. E vice-versa. Geopolítica não é uma partida de futebol. Se fosse, para usar uma metáfora ligada a esse esporte, apoiar Estados Unidos ou Talibã oprimindo a população afegã, seria algo como um atleticano ter que decidir para quem torcer num jogo Cruzeiro e Flamengo. Não há como escolher.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
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