Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros.

Uma nova Revolta da Vacina?

É controverso e anacrônico comparar um legítimo movimento popular com as posturas de fanáticos negacionistas, empoderados por fake news e discursos inflamados de líderes políticos de extrema direita.


revolta da vacina.jpg

Fazer analogias entre passado e presente é uma prática comum entre nós, seres humanos.

Ultimamente, devido ao aumento dos índices de brasileiros que não pretendem se vacinar contra a Covid-19 (22%, segundo pesquisa do Datafolha), muitos indivíduos passaram a comparar a atual onda “antivacina” à chamada “Revolta da Vacina”, mobilização popular contrária a uma lei que determinava a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, ocorrida no início do século passado, no Rio de Janeiro, então capital federal.

De fato, ambos os movimentos apresentam como propósito a recusa em participar de uma campanha de vacinação e, em alguma medida, foram baseados em boatos sobre possíveis efeitos colaterais de vacinas.

No entanto, suas motivações, reinvindicações e público participante são completamente diferentes.

Embora tivesse como pretexto imediato a vacinação obrigatória, a Revolta da Vacina se constituiu em uma reação a arbitrariedades cometidas pelo poder público contra as classes sociais desfavorecidas.

Na época, sob o eufemismo “Reforma Urbana”, que pretendia enquadrar a cidade do Rio de Janeiro nos preceitos de higiene recomendados pelas autoridades sanitárias, a prefeitura promoveu, entre outras medidas, a remoção de centenas de famílias pobres de seus lares (em geral, sem nenhum tipo de contrapartida).

Além do mais, o caráter compulsório da vacinação permitia que casas fossem invadidas por agentes de saúde para impor a imunização.

Também é importante lembrar que, em 1904, ano desse levante popular, os brasileiros possuíam pouco conhecimento sobre a importância de imunizar a população contra determinadas doenças. Portanto, não se tratou de uma revolta baseada na “ignorância do povo” ou “uma reação ao progresso”, conforme apontaram intelectuais e parte da imprensa na época.

gado vacina.jpg

Já o atual movimento antivacina apresenta contornos totalmente distintos.

Os dados sobre os resultados benéficos dos processos de imunização em massa, sobretudo no aumento da longevidade humana, estão acessíveis a todos. Podemos dizer que, no presente século, ser antivacina não está relacionado, necessariamente, à falta de informações, mas à escolha pelo lado obscuro da ignorância.

Enquanto as pessoas que participaram da Revolta da Vacina foram motivadas por adversidades sociais, os adeptos do movimento antivacina contemporâneo são movidos por questões estritamente ideológicas.

Seus argumentos são baseados em áudios, textos e vídeos compartilhados nas redes sociais.

Segundo essa linha de raciocínio, as vacinas contra Covid-19 (principalmente aquelas produzidas em “países comunistas”) seriam estratégias para reduzir a população mundial ou implantar chips 5G para rastrear e controlar as pessoas.

Não obstante, esses movimentos antivacina fazem parte de uma espécie de “combo obscurantista”, pois frequentemente também estão associados a outras ideias esdrúxulas como o terraplanismo, a ideologia de gênero, o politicamente incorreto ou a ligação entre nazismo e esquerda política.

Evidentemente, não compactuo com o ideal positivista que considera a ciência infalível, tampouco acredito que a vacinação em massa resolverá todos os problemas da humanidade.

Meu objetivo é apenas demonstrar como é controverso e anacrônico comparar um legítimo movimento popular com as posturas de fanáticos negacionistas, empoderados por fake news e discursos inflamados de líderes políticos de extrema direita.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Articulista do Observatório da Imprensa. Autor de três livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Francisco Fernandes Ladeira