Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Autor de nove livros.

A Educação para Durkheim

A educação ocupa um papel central no pensamento de Émile Durkheim. No entanto, sua concepção de escola – como instituição responsável pela adequação de crianças e jovens ao status quo e baseada na relação vertical entre professor e aluno


emile-durkheim-quem-foi-historia-teorias-e-pensamentos.jpg

Ao lado dos alemães Karl Marx e Max Weber, Durkheim é um dos pilares do pensamento sociológico clássico. Ao longo de sua profícua e influente carreira intelectual, ele buscou compreender os mecanismos que estão por trás das relações sociais, em suas diferentes instituições, como família, escola, Estado, ciência, linguagem e religião.

Para Durkheim, a Sociologia, enquanto campo de estudo, é a ciência dos “fatos sociais”, que se refere a tudo aquilo que se impõe exteriormente aos homens na vida em sociedade, ou seja, os pensamentos e ações que temos que realizar, sob pena de sofrermos determinadas sanções.

De acordo com o sociólogo francês, cada homem possui dois seres que, mesmo inseparáveis, não deixam de ser distintos: o “ser individual” e o “ser social”. O primeiro se refere às nossas características inatas; aos estados mentais que dizem respeito somente a nós mesmos. Já o segundo está ligado aos sistemas de ideias, hábitos, crenças e valores que exprimem a sociedade em que vivemos.

Entre o ser individual e o ser social há um grande hiato, preenchido por meio do processo conhecido como “socialização”, quando um indivíduo adquire as condições necessárias para se adaptar à vida na coletividade.

De acordo com Durkheim, não há, no ser humano, uma predisposição natural à vida em sociedade, à disciplina, ao interesse pelas ciências, ao respeito às regras ou à submissão à autoridade política. Todas essas práticas não são transmitidas pela hereditariedade, mas podem ser cultamente adquiridas, na convivência com outras pessoas, principalmente no ambiente escolar, onde a sociedade é apresentada ao indivíduo.

Nesse sentido, cabe à educação – isto é, ao conjunto das influências das gerações mais velha sobre às mais novas – substituir o ser que somos ao nascermos por um ser inteiramente novo. Em outros termos, a educação nos conduz a deixarmos nossa natureza primeira (egoísta e associal), fazendo com que a criança se torne, enfim, homem (capaz de levar uma vida social e moral).

Na perspectiva durkheimiana, na escola a criança aprende a obedecer às regras sociais. Para tanto, torna-se indispensável que o professor exerça de maneira satisfatória a sua autoridade; o que não significa, necessariamente, autoritarismo, mas fazer com que o aluno conceba os ensinamentos de seus mestres como os ideais a serem seguidos.

Desse modo, a cada nova geração, a sociedade se encontra em uma espécie de tábula rasa sobre a qual ela deve se construir novamente (privilégio específico da educação humana). Se tudo que a sociedade concedeu ao ser humano lhe fosse retirado, ele, certamente, não seria plenamente realizado, pois estaria reduzido à categoria de um mero animal.

Ao contrário de pensadores como Kant e James Mill, Durkheim rejeita as visões utilitaristas e universalistas sobre a educação, pois esta varia de acordo com o período histórico, refletindo, assim, o modelo de sociedade ideal de uma determinada época, influenciado por fatores como religião, organização política, grau de desenvolvimento científico e modelo de Estado, entre outros.

Na Idade Antiga (tanto na Grécia, quanto em Roma) a educação ensinava o indivíduo a se subordinar à coletividade. Posteriormente, no período medieval, ela estava ligada, sobretudo, aos preceitos cristãos. Na Idade Contemporânea, o sistema educacional passou a ser voltado para as ciências e ao espírito crítico.

Conforme destacado anteriormente, embora tenha nuanças ao longo da história, em todas as épocas a educação apresentou um duplo caráter: ao mesmo tempo singular – pois cada organização social elabora um tipo ideal de homem – e múltiplo – cada casta, estamento, ou classe recebe um tipo de educação, adequado ao seu papel em uma sociedade específica.

Assim, é possível concluir que a educação ocupa um papel central no pensamento de Émile Durkheim. No entanto, sua concepção de escola – como instituição responsável pela adequação de crianças e jovens ao status quo e baseada na relação vertical entre professor e aluno – soa anacrônica para os dias atuais, em que muito se fala em um ensino que possa formar cidadãos socialmente ativos, questionadores de todo tipo de injustiça.

Não obstante, pesquisas em Psicologia Evolutiva (inexistentes na época de Durkheim) apontam que o comportando humano, além das normas sociais, está condicionado a fatores genéticos.

Portanto, adaptando uma das máximas durkheimianas para o século XXI, é plausível dizer que o social não se explica somente pelo social, mas também pelo biológico.

Mas isso é assunto para um outro texto...


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Autor de nove livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/sociedade// //Francisco Fernandes Ladeira