Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

Conversa com Bial, Boulos e a esquerda que a Rede Globo gosta

PSOL é aquela esquerda que faz com que direita, Rede Globo e demais veículos de comunicação possam dormir tranquilos, pois não serão incomodados.


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Historicamente, os principais grupos de comunicação do país sempre estiveram a serviço dos interesses da elite econômica nacional que, por sua vez, é subordinada aos ditames das classes dominantes das nações imperialistas (sobretudo dos Estados Unidos). Nesse sentido, é natural que suas linhas editoriais sejam favoráveis a organizações partidárias e políticos ligados à direita do espectro ideológico, cujas plataformas convergem com a agenda econômica neoliberal entreguista. Também é natural que nomes do espectro político oposto (no caso, à esquerda) tenham representações midiáticas negativas, não raro sendo caluniados ou alvos de grotescas manipulações.

Exemplos de tais práticas jornalísticas não faltam, como a participação da imprensa hegemônica nos golpes de Estado arquitetados por Washington em 1964 e 2016, a defesa das privatizações colocadas em prática durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o apoio (envergonhado) a Jair Bolsonaro na campanha presidencial (“conservador nos costumes, liberal na economia”) e as perseguições a governos nacionalistas, que representavam minimamente algum tipo de entrave para a atuação do capital externo no Brasil (Getúlio Vargas, João Goulart, Lula e Dilma Rousseff).

No entanto, determinados nomes da esquerda fogem à regra esboçada acima: são abordados de maneira positiva nos discursos midiáticos. Um caso emblemático pôde ser encontrado na recente participação do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e membro do PSOL, Guilherme Boulos, no programa Conversa com Bial, da Rede Globo.

Antes de adentrar no conteúdo da entrevista propriamente dito, é importante tecer algumas palavras sobre a função ideológica do Conversa com Bial e as (estreitas e amistosas) relações entre Boulos e grande mídia.

Em 2014, Guilherme Boulos ganhou destaque na imprensa nacional como um dos principais nomes das mobilizações populares genericamente conhecidas como “Não vai ter Copa”. Este movimento, em última instância, funcionou como uma espécie de braço esquerdista do movimento que, na época, já articulava a queda do governo de Dilma Rousseff.

Não por acaso, em junho daquele ano, Boulos tornou-se colunista semanal do site da Folha de S.Paulo, onde dedicava grande parte de seus artigos, justamente, para fazer críticas ao PT. Em março de 2017, com o golpe já consolidado, Boulos deixou de ser colunista da Folha: sua missão estava cumprida.

Três anos depois, a campanha de Boulos para a prefeitura de São Paulo foi festejada pela imprensa. Não que o psolista fosse o candidato preferido do grande capital. Longe disso. Esse aceno positivo a Boulos nada mais foi do que uma estratégia para atacar a chapa petista, encabeçada por Jilmar Tatto.

Algumas manchetes presentes da época demonstravam claramente esse viés editorial: “Líderes comunitários trocam PT por Boulos nas eleições em São Paulo” (O Estado de São Paulo), “São Paulo: Boulos se descola de França, humilha o PT e sonha com 2º turno” (Veja), “Boulos ofusca PT e deve consolidar Psol na liderança da esquerda em São Paulo” (HuffPost Brasil).

Já o Conversa com Bial (apresentado pelo jornalista Pedro Bial) é um dos principais programas da Rede Globo sob o ponto de vista ideológico. Por lá passaram nomes que, pelos mais variados motivos, a família Marinho queria que estivessem em evidência (entre eles Sérgio Moro, Tabata Amaral, Ciro Gomes e Eduardo Leite). Até Jones Manoel, youtuber ligado ao PCB (partido que, assim como a UP, é uma espécie de satélite do PSOL), já foi elogiado no programa de Bial. Coincidência ou não, Jones é uma das vozes mais atuantes da esquerda antipetista.

Por falar nisso, não por acaso, em abril do ano passado, ao participar do (reacionário) programa Manhattan Connection, Bial disse que só entrevistaria o ex-presidente Lula com um polígrafo (detector de mentiras). Mais explícito impossível.

Feitas as devidas (e necessárias) observações, vamos ao conteúdo da entrevista de Boulos a Bial.

Logo nos primeiros minutos do programa, os elogios mútuos já davam a tônica do caráter amigável da conversa. Evidentemente, não que eu esperasse por trocas de farpas. Mas, como gostam de propagar muitos jornalistas, uma das funções dos veículos de imprensa é, justamente, interpelar os indivíduos que atuam na esfera político-partidária com questões firmes e “provocativas” (e, até certo ponto, embaraçosas).

Citando uma clássica frase de Euclides da Cunha – “não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora” -, Bial fez questão de desconstruir as imagens negativas que Boulos e MTST ainda têm para alguns setores conservadores, a partir de epítetos como “bárbaro”, “subversivo” ou "invasor”. “É admirável você já ter essa trajetória política/social/existencial e vai fazer 40 anos”, muito jovem!”, disse Bial a seu entrevistado. Nesse aspecto, é interessante constatar que, ao contrário de outros movimentos sociais, como o MST (historicamente o ligado ao Partido dos Trabalhadores), algumas das ações do MTST são vistas com simpatia na imprensa.

O apresentador mencionou que o psolista, nascido na classe média alta paulistana, “considerado por muitos como a renovação da esquerda brasileira”, talvez seja “sucessor natural de Lula”. Assim, no decorrer do programa, cada pergunta feita por Bial a Boulos parece ter sido estrategicamente pensada para construir a imagem de um sujeito que renunciou às regalias da classe média alta para aderir às causas populares; alguém que saiu de sua “bolha de privilégios” para morar num acampamento de sem-tetos; algo semelhante à prática designada pelo revolucionário africano Amílcar Cabral como “suicídio de classe”. Um tácito recado para os estratos mais inferiores da pirâmide social: “vejam, não só Lula; Boulos, que sabe dialogar com as ‘bases’, também representa vocês”.

Entretanto, foi no final de seu programa, ao se referir ao coordenador nacional do MTST como “estrela da nova esquerda”, que Bial deixou transparecer o porquê de os grandes grupos de comunicação do país preferirem PSOL ao PT; Boulos a Lula. Aparentemente, trata-se de uma simples fala. Porém, é carregada de intenções ideológicas.

O termo “nova esquerda” – aplicado também a partidos como o espanhol Podemos e a políticos como o presidente chinelo Gabriel Boric – se refere, basicamente, a setores progressistas que abandonaram a tradicional luta de esquerda e a busca pela superação do capitalismo para aderir a pautas como o movimento verde ou o identitarismo (que representa questões importantes, sem dúvida; porém, ao não atrelar o fator “classe”, privilegia apenas a presença de determinadas minorias em cargas de chefia em empresas e ainda por cima legitima valores elitistas como a chamada “meritocracia”).

Dito isso, é fundamental ressaltar as diferenças fundamentais entre Partido dos Trabalhadores e Partido Socialismo e Liberdade, que, em essência, são responsáveis pelas representações midiáticas negativas (em relação ao PT) e positivas (sobre o PSOL).

Mesmo com todo seu caráter conciliatório e integração ao status quo político, o PT ainda mantem fortes ligações com sindicatos e movimentos sociais, fatores que concedem ao partido uma potencial capacidade de mobilização das massas (principalmente se formos levar em consideração a grande popularidade de seu principal nome, o ex-presidente Lula).

Por outro lado, o PSOL é, inerentemente, uma organização política de classe média. Sem base popular, as principais pautas do partido – temáticas como lugar de fala, linguagem não-binária e apropriação cultural – são estranhas ao grosso da população, mais preocupado com a própria sobrevivência diária.

Em 2016, por exemplo, o partido foi explicitamente apoiado pela Rede Globo no segundo turno das eleições municipais do Rio de Janeiro. Na ocasião, sua principal base de apoio se localizava na zona sul da capital fluminense (tradicional área de moradia das classes média e alta).

Portanto, podemos dizer que, no atual contexto, o PSOL se mostra muito mais palatável do que o PT para que a agenda neoliberal de desmonte do Estado e retirada de direitos da população continue sendo aplicada no Brasil sem maiores contratempos.

Obviamente, este texto não é um ataque pessoal a Guilherme Boulos (aliás, como o fazem alguns nomes da própria esquerda). Pretendi somente realizar uma crítica pontual aos papeis desempenhados pelo coordenador do MTST e seus colegas de partido na empreitada antipetista da mídia hegemônica (quer eles estejam conscientes disso ou não).

Se há algo que não podemos falar sobre Pedro Bial é tanchá-lo como ingênuo. Não chamaria Boulos para uma entrevista e o elogiaria tanto somente por acreditar nas causas que o MTST defende. Parafraseando Shakespeare, sempre há algo de podre no Reino da Vênus Platinada. Como diz o dito popular: “não dão ponto sem nó”.

Em suma, o PSOL é aquela esquerda que faz com que direita, Rede Globo e demais veículos de comunicação possam dormir tranquilos, pois não serão incomodados.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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