Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

Em entrevista polêmica, Gabriela Priori não desconstruiu estereótipos; os reforçou

O mais inusitado na entrevista de Gabriela Priori aqui abordada não foi ela ter dito que “desconstruirá estereótipos”; mas se achar “intelectual”


gabriela-prioli.jpg

Nos últimos dias, um dos assuntos mais comentados nas redes sociais foi a entrevista concedida ao UOL pela apresentadora da CNN Brasil, Gabriela Priori, sobre o convite que recebeu para ser musa do Camarote Nº1 da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.

“Vejo [o convite] como uma chance de desconstruir estereótipos. Afinal, por que a musa não pode ser uma intelectual? [...] Vou desfilar cheia de brilho e com meus looks de carnaval sabendo que meu diploma de Mestrado pela USP continua válido e que meu livro segue na lista dos mais vendidos”, disse Priori.

Nessa fala, podemos perceber claramente que a apresentadora da CNN Brasil não está desconstruindo estereótipos; pelo contrário, os reforça.

De acordo com o Dicionário Online de Português, o termo “estereótipo” se refere a “concepção baseada em ideias preconcebidas sobre algo ou alguém, sem o seu conhecimento real, geralmente de cunho preconceituoso ou repleta de afirmações gerais e inverdades”.

No caso aqui debatido, o estereótipo está relacionado à ideia de que o carnaval, maior festa popular do Brasil, (supostamente) é um evento exclusivo para pessoas ignorantes e alienadas. Portanto, nessa lógica, “intelectuais” (como Priori se define) não combinam com o carnaval.

Tratam-se, assim, das clássicas dicotomias “erudito versus popular” e “alta cultura versus baixa cultura” que, conforme já nos explicou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, nada mais são do que estratégias simbólicas das classes dominantes para se distinguirem das classes dominadas.

Nesse caso, o capital cultural “mestrado pela USP” é fator de superioridade social. Traduzindo para o bom português, ela quis dizer: “vou me misturar com o povão, mas não vou me ‘contaminar’, continuarei superior após essa experiência”.

Ainda na entrevista ao UOL, Gabriela Priori afirmou: “Por qual razão eu não posso trabalhar com a imagem e, também, com o conteúdo? Essa divisão só atrapalha. A maioria das grandes mulheres que conheço ocupam muito bem todos esses espaços. Talvez essas mulheres que todo mundo sempre olhou apenas como ‘imagem’ só não tenham tido a chance de se apresentarem além dela”.

De acordo com Jessé Souza, essa “divisão” corresponde ao dualismo platônico “mente/corpo”, principal fator de hierarquização de grupos sociais na formação da moralidade no Ocidente. Assim, “musas de carnavais”, intelectualmente inferiores, são somente “imagens”; em contraposição a Prioli, “mentalmente superior”, pois trabalha com “o conteúdo”.

No entanto, cabe aqui uma pergunta capciosa: se, esteticamente, Gabriela Priori não possuísse um padrão europeu, teria tanto espaço na CNN e na mídia em geral como comentarista política? Trabalhos como o relatório Mulheres no Jornalismo Brasileiro (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo – Abraji) e o estudo Mulheres e comunicação no Brasil: 1995 a 2015 (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea) apontam que, no jornalismo televisivo brasileiro, predominam mulheres brancas, heterossexuais e jovens.

Coincidentemente (ou não), o mesmo perfil de Gabriela Priori. Talvez a “imagem” seja mais importante do que o “conteúdo” também nessa área.

Como bem escreveu o jornalista Marcelo Hailer, em artigo publicado na Revista Fórum, “se tem algo profundamente político, intelectual e para todos neste país é o Carnaval. Este sim, perturba historicamente preconceitos, barreiras de gêneros, de sexualidades, de raça e classe, principalmente aquele que é realizado fora dos camarotes”.

Exemplos não faltam. No início dos anos 50, a marchinha “Retrato do Velho”, interpretada por Francisco Alves, canalizou os anseios populares pela volta de Getúlio Vargas à presidência da República: “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”. No centenário da Abolição da Escravatura, a Estação Primeira de Mangueira cantou o que a hipocrisia cotidiana insiste em esconder: denunciou que o negro, apesar de livre do açoite e da senzala, está preso à miséria da favela. Já a Paraíso do Tuiuti, em épico desfile na Marques de Sapucaí, quatro anos atrás, fez o que muitos intelectuais ainda não conseguiram: explicou de forma didática e acessível para o grande público como e porque ocorreu o Golpe de 2016.

Na luta de classes simbólica que se trava no Brasil, o carnaval sempre foi um palco privilegiado para difundir as aspirações populares. Por isso, essa festa é representada pela ideologia elitista como “inferior”, “alienadora”, “imoral” e “promiscua”. Ou seja, a alteridade negativa ideal para corroborar o anteriormente citado dualismo “mente/corpo”.

Entretanto, no frigir dos ovos, o mais inusitado na entrevista aqui abordada não foi Gabriela Priori ter dito que “desconstruirá estereótipos”; mas ela se achar “intelectual”. Como apregoam os manuais de autoajuda (certamente, entre os livros mais vendidos do país): autoestima é tudo!


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// //Francisco Fernandes Ladeira