Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

Maconha: por que não, legalizar?

Em última instância, é um crime ambiental determinar arbitrariamente que a cannabis sativa, vegetal que está no planeta há mais tempo que o ser humano, tenha cerceado seu direito à existência.


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Entre as grandes polêmicas de nosso tempo, os debates sobre a legalização da maconha são, certamente, um dos mais acalorados.

De um lado, estão os setores mais conservadores, decisivamente contrários à liberação do uso recreativo da erva.

De outro lado, estão os setores mais libertários, que defendem, de modo não menos enfático, sua legalização. Para começarmos a discutir o tema proposto, é imprescindível evitar opiniões maniqueístas e precipitadas.

É absolutamente controverso acreditar que a legalização da maconha causará um aumento excessivo de usuários e desencadeará ondas de violência.

É fácil constatar que o grande número de óbitos associados à maconha está diretamente relacionado à sua proibição, e não necessariamente a seu consumo.

Ou seja, morrem mais pessoas por causa da “guerra às drogas”, do que propriamente pelo uso de maconha.

Outros mitos em relação à erva devem ser questionados: ao contrário do que muitos podem pressupor, a maconha não é a porta de entrada para as chamadas “drogas pesadas”.

É o álcool, e não a cannabis, a primeira “droga” utilizada pela maioria dos usuários de cocaína, heroína, crack, LSD e tantas outras substâncias consideradas ilícitas. Por outro lado, deve ser igualmente rejeitada a afirmação de que a maconha, por ser uma erva natural, não produz nenhum risco à saúde.

Como qualquer outra “droga” seu uso constante e desenfreado pode provocar danos físicos e mentais.

Outra falácia divulgada pelos grupos pró-legalização é afirmar que o uso de maconha não causa dependência (evidentemente, isso pode variar de acordo com o usuário).

Mas, por que a cannabis sativa, planta utilizada há milênios para os mais diversos fins, atualmente tem seu consumo classificado como “ilegal” na imensa maioria das nações? Para começarmos a entender o porquê de a maconha ser proibida em praticamente todo o planeta, devemos nos remeter aos Estados Unidos da primeira metade do século passado.

A princípio, o hábito de fumar maconha em terras ianques esteve associado aos imigrantes mexicanos.

Sendo assim, demonizar a erva também consistia em uma forma de estigmatizar essa minoria social.

Nessa empreitada antimaconha, o nome de Harry Jacob Anslinger, burocrata que presidiu o FBN (Federal Bureau of Narcotics), órgão criado pelo governo estadunidense para lidar com questões relacionadas às drogas, não pode deixar de ser mencionado.

Anslinger, motivado por interesses exclusivamente pessoais, conseguiu convencer influentes autoridades e a opinião pública estadunidense sobre os supostos malefícios de não se proibir a marijuana.

Finalmente, após a “Convenção Única de Entorpecentes” da Organização das Nações Unidas, na década de 1960, foi recomendada, sob pressão do Governo de Washington, a proibição da maconha em todo o planeta.

A partir de então, inúmeras campanhas publicitárias de conteúdo duvidoso foram realizadas com o intuito de propagar o mito da “erva maldita”. Bilhões de dólares foram gastos inutilmente para combater essa “droga”.

Tal cruzada foi em vão. Mesmo tendo seu uso legalmente proibido, o número de usuários de maconha continuou crescendo em todo o planeta. Está demonstrado cientificamente que a maconha é menos letal do que várias outras “drogas”.

Desse modo, é no mínimo controverso permitir o consumo de tabaco ou álcool, por exemplo, e reprimir o uso de maconha.

Não é estranho, assistirmos diariamente nos principais telejornais várias reportagens que apontam inúmeras mortes relacionadas direta ou indiretamente ao consumo desmedido de álcool, e, durante os intervalos desses mesmos programas, nos depararmos com propagandas que incentivam e glamourizam o uso de bebidas alcoólicas?

Importantes setores industriais são veementes contrários a liberação da maconha, não por questões morais, mas por razões mercadológicas.

Caso seja legalizada, a maconha será um forte concorrente comercial das bebidas alcoólicas e do tabaco. Certamente, algumas pessoas preferirão algumas tragadas em seu “baseado” a ingerir álcool ou fumar um cigarro.

Não obstante, de acordo com análises feitas em laboratório, os efeitos da cannabis no organismo humano são semelhantes aos efeitos produzidos por remédios vendidos indiscriminadamente em qualquer drogaria.

Desse modo, a indústria farmacêutica global não admite, em hipótese alguma, perder seu monopólio de “entorpecer” a população.

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Assim, os partidários da legalização da maconha enfrentam, além dos setores conservadores, pelo menos três poderosos lobbies: da indústria farmacêutica, da indústria do tabaco e da indústria de bebidas alcoólicas.

A “desculpa” da “guerra às drogas” também é utilizada para escamotear as intervenções estadunidenses em outros países, para a repressão policial contra jovens pobres e negros e para a ocupação militar de favelas brasileiras.

Ademais, a realidade nos mostra que, na prática, a guerra às drogas é um verdadeiro fracasso.

Não diminuiu o número de usuários, como anteriormente mencionado e, em contrapartida, contribuiu para o crescimento da violência.

Portanto, a proibição do uso de maconha não está fundamentada em argumentos científicos e realistas, mas fomentada a partir de um pseudomoralismo e de fortes interesses políticos e econômicos.

Como se pôde constatar no decorrer desse texto, não há argumentos plausíveis para a proibição da maconha; tampouco há razões lúcidas para fazer apologia ou incentivar seu uso.

Impedir alguém de escolher entre fumar ou não uma erva, que é utilizada há milênios, ação esta que traz possíveis prejuízos somente a própria pessoa, é um grave ataque à liberdade individual.

Cabe a cada um decidir o que é melhor (ou pior) para si.

Em última instância, é um crime ambiental determinar arbitrariamente que a cannabis sativa, vegetal que está no planeta há mais tempo que o ser humano, tenha cerceado seu direito à existência.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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