Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Autor de nove livros.

Marx e a educação

Na vasta obra de Marx não há uma reflexão dedicada exclusivamente ao campo educacional. Porém, diferentemente das perspectivas pedagógicas ingênuas, que acreditam ser a educação, por si própria, um instrumento de transformação social, Marx considerava a atividade do educador como prática inserida no modo de produção vigente. O educador faz parte de um meio social, sendo, portanto, vulnerável a determinados ditames sociais, isto é, à ideologia dominante.


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Como pensador, Marx é, muito provavelmente, mais comentado do que propriamente lido. De acordo com uma célebre frase, seus escritos não pretendiam apenas conhecer a realidade, mas, sobretudo, transformá-la.

Mais do que um “filósofo do trabalho”, um mero teórico, Marx aspirava ser um “filósofo dos trabalhadores”, tendo em vista a chamada “revolução do proletariado”, responsável pela superação da sociedade capitalista, rumo a uma organização social em que os seres humanos estivessem, enfim, livres do trabalho alienado. Em suma, uma realidade em que homens não explorem outros homens, em que todos possam desenvolver plenamente suas capacidades. Karl Marx viveu entre 1818 e 1883, período em que o continente europeu assistia à consolidação do sistema capitalista – baseado na propriedade privada dos meios de produção, no trabalho assalariado e na grande produção e circulação de mercadorias.

Marx possuía uma visão linear sobre a história, expressa em sua teoria conhecida como “materialismo histórico dialético”, que compreende o desenvolvimento da humanidade a partir de sua produção material e dos antagonismos entre as classes sociais. Nesse sentido, a história seria constituída por diferentes etapas, movidas, principalmente, pelas contradições geradas pela organização do sistema de produção (luta de classes). Segundo este pensador, “em um caráter amplo, os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno podem ser considerados como épocas progressivas da formação econômica da sociedade”.

Em outros termos, pode-se afirmar que o materialismo dialético é, portanto, a compreensão de que existe uma disputa de classes sociais desde os primórdios da humanidade, condicionada pela produção material (trabalho e resultado do trabalho) da sociedade.

De acordo com Marx, a capacidade de modificar a natureza, ou seja, nosso trabalho, é o que nos faz verdadeiramente humanos, diferentes de todas as outras espécies existentes. Segundo ele, não há sociedade que, para sua própria reprodução enquanto tal, não consuma. E, para consumir, é necessário produzir. Portanto, todas as sociedades humanas são centralizadas e organizadas em torno da reprodução material de sua existência.

No caso do sistema econômico vigente no mundo contemporâneo (capitalismo), o principal antagonismo social está entre os detentores dos meios de produção (capitalistas) e aqueles que, como única opção, têm que vender sua força de trabalho em troca de um salário (proletariado).

Nessa relação profundamente desigual, ocorre o que Marx designa como “alienação do trabalho humano”, com parte da força de trabalho do operário sendo expropriada pelo patrão. Isso significa que o valor gerado pelo trabalhador é muito superior ao que ele produz. Esse excedente – denominado “mais valia” – gera a riqueza do capitalista. Diante dessa realidade opressiva, Marx enfatizava que, inexoravelmente, a classe explorada se rebelaria contra a situação vigente, derrubaria a ordem social burguesa e promoveria o advento de um outro tipo de sociedade: o socialismo, fase de transição para a derradeira etapa da história da humanidade de acordo com Marx, o comunismo.

Na vasta obra de Marx não há uma reflexão dedicada exclusivamente ao campo educacional. Porém, diferentemente das perspectivas pedagógicas ingênuas, que acreditam ser a educação, por si própria, um instrumento de transformação social, Marx considerava a atividade do educador como prática inserida no modo de produção vigente. O educador faz parte de um meio social, sendo, portanto, vulnerável a determinados ditames sociais, isto é, à ideologia dominante. Logo, as instituições de ensino não se constituem em lócus a partir do qual se pode desencadear a transformação revolucionária da sociedade como um todo.

Assim como outros pensadores posteriores – como Bourdieu, Althusser e Paulo Freire – Marx reconhecia o caráter dialético da educação, como campo de batalha simbólico da luta de classes. Trata-se de um espaço permeado de choques, de conflitos, marcado inerentemente pela colisão de valores, interesses e convicções que correspondem às distintas perspectivas e visões de mundo.

Consequentemente, no sistema educacional, tanto se pode inculcar hábitos e valores conservadores, incentivando, desse modo, a formação de indivíduos acomodados ao status quo; quanto se pode fortalecer disposições críticas, estimular o inconformismo, a inquietação e o desenvolvimento de capacidades questionadoras.

Apesar de não reconhecer a escola como centro irradiador das transformações sociais, podemos considerar que Karl Marx, com sua profícua obra que analisa profundamente o andamento do modo de produção capitalista, suas principais contradições, explicando de forma clara seus mecanismos de reprodução material e ideológica, oferece aos educadores um excelente referencial teórico para refletir sobre nossa sociedade, de maneira geral, e a importância da prática pedagógica, em particular.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Autor de nove livros. .
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