Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

O PCO está em uma realidade paralela?

Este texto encerra a trilogia de artigos sobre o Partido da Causa Operária (PCO)


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Este texto encerra a trilogia sobre a seita/empresa da família Pimenta, mais conhecida como Partido da Causa Operária (PCO). Além de operar como seita e empresa (temáticas discutidas nos dois trabalhos anteriores, publicados aqui mesmo no Portal Obvious), podemos dizer que o PCO também está em uma realidade paralela. Parafraseando um famoso desenho animado, trata-se do "fantástico mundo de Rui Costa Pimenta".

Nesse "mundo alternativo", o PCO (um dos menores partidos legalizados do país) é capaz de influenciar os rumos dos principais acontecimentos da política nacional. O modus operandi (ou seria "modus delirantes"?) funciona, basicamente, assim: o PCO solta uma de suas polêmicas vazias (meras "iscas de engajamento"), há certa repercussão negativa em veículos de imprensa e, posteriormente, os adeptos da seita pimentista, em peso, publicam nas redes sociais que "o partido está crescendo e incomoda a burguesia".

Nessa mesma linha, há também a (suposta) perseguição do imperialismo estadunidense ao PCO. Vejam bem, é surreal pensar que, a maior máquina de guerra e espionagem da história da humanidade, responsável por inúmeros golpes de Estado mundo afora, iria se preocupar, justamente, com o PCO, que elegeu somente um vereador até hoje (e mesmo assim numa aliança com partidos de direita).

Não por caso, uma das militantes virtuais mais fervorosas da seita (espécie de "Velho da Havan" do PCO"), após Lula citar Marx em um discurso, escreveu nas redes sociais: "Lula até citou Carl Marx (sic) em seu discurso. Parabéns Rui Costa Pimenta, esse mérito é seu!"

Mas a realidade paralela do PCO não opera apenas sobre o presente, também constrói seu próprio passado, com interpretações delirantes a respeito de fatos pretéritos, feitas sob medida para os membros da seita passarem vergonha nas redes sociais (aliás, essa vergonha, ao ter que defender incondicionalmente todos os preceitos do "fantástico mundo de Rui Costa Pimenta", é a maior prova de fidelidade à seita).

Na realidade paralela do PCO, toda a historiografia brasileira está errada, só Rui Costa Pimenta sabe a "verdade". Por isso, poucos meses atrás, o PCO criou sua própria versão sobre a história do Brasil, por meio de um curso ministrado, exclusivamente, por Rui Costa Pimenta (a mente iluminada, quem mais poderia?).

Na história do Brasil paralela, feita pela narrativa do PCO, o descobrimento do Brasil foi um acontecimento revolucionário, os bandeirantes são heróis nacionais e a Ditadura Militar não caiu de podre, mas por causa das "mobilizações populares".

Aliás, no fantástico mundo de Rui Costa Pimenta, há uma revolução iminente em nosso país (desnecessário dizer qual partido vai liderar as massas nesse processo fantasioso).

Como em todo mundo paralelo que se preze, no do PCO, também há ideias negacionistas. Para Rui Costa Pimenta, a Coronav não tem eficácia; é a "vacina do Doria". Na geopolítica do partido/seita, Talibã e Putin vão liderar a revolução socialista mundial.

Entretanto, os maiores delírios do PCO, sem sombra de dúvidas, estão relacionados as "análises" do partido (leia-se, opinião de Rui Costa Pimenta) sobre futebol.

No fantástico mundo de Rui, a seleção brasileira e o Menino Ney são perseguidos pelo imperialismo, pela Globo, por Casagrande, por Galvão Bueno, pelo VAR, pela FIFA, pela Conmebol, pela UEFA e pela "esquerda pequeno-burguesa".

Por falar em "esquerda pequeno-burguesa", para o PCO, Guilherme Boulos foi o responsável pela famosa derrota do Brasil por 7 a 1 contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014.

Evidentemente, um texto apenas não dá conta dos delírios pimentistas. A cada "Análise Política da Semana" (equivalente do PCO ao cercadinho bolsonarista), feita todos os sábados por Rui Costa Pimenta, a realidade paralela do partido ganha um novo item.

E os militantes, por consequência, têm que replicar o que Rui diz, sem questionar e sem medo de passar constrangimento nas redes sociais. Como já cantava Zé Ramalho: "Eh, oô, vida de gado".


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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