Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

Paradigmas da reprodução em Educação

Este texto apresenta uma breve análise sobre os “paradigmas da reprodução”, isto é, a concepção de que os sistemas de ensino são mecanismos sociais de perpetuação e de legitimação de hierarquias e divisões sociais.


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De maneira geral, entende-se por “paradigmas da reprodução” a concepção de que os sistemas de ensino são mecanismos sociais de perpetuação e de legitimação de hierarquias e divisões sociais existentes alhures; constituindo-se, assim, em instrumentos de integração ideológica e inculcação dos saberes “dominantes”. Em outras palavras, a escola cumpre a estratégica função de agente responsável por produzir as condições de reprodução das relações de dominação entre as diferentes classes sociais.

Basicamente, há dois modelos de teorias da reprodução. O primeiro – presente, sobretudo nas obras de autores como Bourdieu e Passeron – admite a escola como instituição a serviço da ideologia dominante, porém concebe a ela certa margem de independência em relação à esfera da vida material.

Por outro lado, as teorias da reprodução de filiação marxista – encontradas em Althusser; Baudelot e Establet; Bowles e Gintis, entre outros – enfatizam a participação do aparelho escolar na reprodução das relações sociais de produção.

Esta última linha de pensamento, por partir de um rígido determinismo social e econômico para compreender a organização e o funcionamento da instituição escolar, não leva em consideração as situações concretas construídas e vividas pelos atores sociais em seus cotidianos.

Historicamente, o paradigma da reprodução emerge na conjuntura global do pós-Segunda Guerra Mundial, mais precisamente entre o final da década de 1960 e início da década seguinte.

Este período é marcado, entre outros fatores, pela expansão de políticas sociais, maior atuação do Estado, explosão demográfica, grande crescimento econômico global (interrompido pela Crise do Petróleo, em 1973), modernização tecnológica (o que demandou maior necessidade de mão-de-obra qualificada) e universalização do ensino secundário nos países centrais do capitalismo.

Apesar do clima de otimismo trazido pelo entusiasmo desenvolvimentista e produtivista e pela crença na mudança (e democratização) social próprios da época, este período histórico também foi marcado por revoltas sociais e crises políticas.

Diante dessa realidade, as teorias da reprodução surgiram para analisar cientificamente as mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais inerentes aos anos 60 e 70 – sobretudo as mudanças no perfil social da clientela escolar, com a chegada massiva de alunos oriundos das classes populares. Assim, o tema da “mudança social” foi a temática chave dessa linha sociológica.

Entre os trabalhos realizados nesse sentido, podemos destacar as tentativas de compreender as disparidades entre os grupos sociais face aos sistemas de ensino; os estudos sobre as relações entre sistemas de ensino e a satisfação das necessidades da sociedade tecnológica; os recenseamentos da população escolarizada e as buscas para identificar a carência cultural das crianças e jovens provenientes dos grupos sociais desfavorecidos para se chegar a soluções compensatórias.

No entanto, autores como Maria Alice Nogueira, professora da UFMG, consideram que a teoria da reprodução, como linha de pensamento, se demonstrou limitada, pois seus estudos estiveram concentrados em nível macroscópico de análise, focalizando somente as grandes relações entre o sistema educacional e as outras instituições sociais. Não contemplou, portanto, os sujeitos sociais e o interior dos processos de ensino (estabelecimento escolar, sala de aula etc.).

Desse modo, torna-se necessário a formulação de uma teoria sociológica mais globalizante, que possa ser capaz de dar conta satisfatoriamente da complexidade das relações entre o sistema educacional e das outras instituições sociais (notadamente a divisão social do trabalho), além de interpretar os fracassos dos ideais de democratização do ensino.

Outro ponto importante a ressaltar, é o fato de os paradigmas da reprodução terem o grande mérito de nos chamar a atenção sobre os conteúdos e formas escolares não serem neutros, haja vista que a escola não está alheia aos processos de dominação social. Porém, como apontado anteriormente, se mostram equivocados ao considerarem os indivíduos como espécies de autômatos frente ao poder das instituições.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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