Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

PCO é uma empresa?

Além de seita, o PCO também é uma empresa?


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No último mês de janeiro, escrevi um artigo, aqui no Portal Obvious, em que apontava as características típicas de seita presentes no funcionamento do Partido da Causa Operária (PCO).

Não obstante, outro dia li no Facebook uma postagem de um ex-militante do partido, afirmando que o PCO é "mais uma empresa familiar vendendo demagogias e soluções milagrosas e sendo irrelevante para o mundo, para a história para a luta de classes".

Desse modo, cabe fazer um novo questionamento: "além de operar como uma espécie de seita, o PCO também funciona como uma empresa?"

Para responder a esta pergunta, vamos analisar o modus operandi do partido, a partir dos conteúdos presentes em seu principal veículo de imprensa - Causa Operária TV (COTV) - e das recentes participações de membros da direção do PCO em programas ligados à extrema direita, como Pânico (Jovem Pan) e Flow Podcast.

Acredito que a presença de integrantes da família Pimenta na direção nacional do PCO não seja uma questão a se debater, haja vista que o partido, como uma "empresa privada familiar", possui sua própria dinâmica. O fundo eleitoral é deles, fazem o que bem entendem. No Brasil (e em todos os países capitalistas), “ser filho do dono” é um emprego bastante rentável.

Se a família que é proprietária do partido viajou pela Europa, enquanto funcionários do PCO estavam com salários atrasados, nós, "pequenos burgueses", não temos nada a ver com isso, certo? Não vamos atrapalhar a "revolução". Além do mais, eu sou aluno da Unicamp, instituição ditatorial, pois exige o "passaporte da vacina" para sua comunidade acadêmica, não sendo, portanto, negacionista como o PCO.

Os programas da COTV lembram aquelas atrações vespertinas do SBT e Record, que o tempo todo tentam vender alguma coisa para o público. O catálogo do partido é variado: canecas, camisas, adesivos, jornais e até um curso sobre os quinhentos e poucos anos da história do Brasil (ministrado somente por Rui Costa Pimenta, é claro).

Será que vai ter um tópico em homenagem ao Menino Ney?

Outra questão que chama a atenção na COTV é a campanha para tornar-se membro do canal, em que todos os planos disponibilizados terminam com o famoso “,99”.

Segundo o Gestor Comercial João Zgoda, essa prática se trata de “uma das estratégias mais usadas para vender mais. Principalmente no varejo. Diminuir um centavo de um preço arredondado causa a sensação de que um produto está mais barato. E o marketing explora este efeito psicológico do preço há anos”.

Ora, uma boa estratégia de vendas é importante para toda empresa, nem que, para isso, tenha que colocar em práticas determinadas artimanhas, não é mesmo?

Operadores de telemarketing costumeiramente são chatos, mas as atuações dos militantes do PCO em grupos de Whatsapp não ficam atrás. Incessantemente, eles tentam vender (em nome da "revolução") jornais, rifas, cursos e outras coisas.

Aliás, os cursos da “Universidade Marxista” (a “Unizap” do PCO) geralmente são frutos das polêmicas criadas pelo partido na busca por engajamento digital.

O PCO entrou em polêmicas sobre o stalinismo, abre-se um curso sobre o tema.

As postagens do PCO exaltando os bandeirantes repercutiram, é feito um curso sobre História do Brasil. Ironicamente, esta “universidade” só tem um único professor. Nem precisa dizer quem é.

Não por acaso, os conteúdos produzidos pelo partido que fazem mais “sucesso” no mundo virtual estão relacionados à defesa do Talibã, de Robinho, do negacionismo, do Monark e dos bandeirantes, entre outros. Também há os artigos do Diário Causa Operária com títulos dúbios e polêmicos, estrategicamente pensados para ganhar “cliques”. “Engraçado quando eles [PCO] falam alguma m... que os bolsonaristas gostam. Aí o partido bomba na internet pelos motivos errados e mandam ‘partido foi o mais procurado no google essa semana’”, escreveu um internauta no Facebook.

Conforme bem sintetizou um ex-integrante do partido, resumindo o PCO em números: “90%campanha financeira para o sustento da família, 9% venda de canecas, jornais, rifas e bugigangas “revolucionárias”, para pagar a escolinha Waldorf das crianças da família, 1% militante doidinho playboy balançando bandeira do PCO em bairro nobre”.

Toda empresa que queira aumentar suas vendas deve aumentar seu público. Isso é elementar. Assim, as participações de integrantes do PCO em programas como Pânico e Flow Podcast têm por objetivo comercial atrair novos consumidores para a empresa da família Pimenta.

Nesse sentido, um jornalista, ex-membro do partido, levantou a seguinte hipótese:

O PCO está mudando seu nicho de mercado. O foco na extrema direita deslocará mais uma vez o público consumidor da revolução do Jabaquara (o bairro de onde eles preparam a tomada do poder). Ficarão com uma rebarba do bolsonarismo, caso a prospecção de clientes seja bem-sucedida. Os novos compradores dos discursos de Rui Costa Pimenta no mercado da política não terão nada a ver com os fãs da última temporada (que consiste em apoiadores do PT). A mudança de público-alvo visa uma nova etapa de ataques ao PT (como nos anos 2000). Não será a primeira guinada brusca da legenda, agrupamentos esdrúxulos surgiram das rupturas anteriores, reivindicando políticas abandonadas pelo PCO em outros momentos.

Em suma, o PCO pode não ter êxito enquanto partido político, pois, em pouco mais de duas décadas e meia de existência, elegeu somente um vereador; tampouco teve algum tipo de relevância no cenário nacional. Entretanto, no tocante à sua estratégia mercadológica, são muito bem-sucedidos: prometem uma “revolução imaginária” e ainda lucram com isso. Parafraseando um programa de TV: pequeno partido, grandes negócios.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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