Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros.

Sobre a recente ascensão da extrema direita em âmbito planetário

Como todo processo multifacetado, não há apenas um motivo para explicar a ascensão da extrema direita em âmbito global. No entanto, quatro pontos ajudam a compreender esta questão: o fascismo como cartada da burguesia em momentos de crise, utilização das redes sociais, abandono da pauta “luta de classes” por parte da esquerda e distanciamento da Igreja Católica em relação aos pobres


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Nos últimos anos, um espectro tem rondado o planeta. Trata-se da ascensão da extrema direita, simbolizada por nomes de diferentes países e realidades, como Donald Trump (Estados Unidos), Marine Le Pen (França), Viktor Orbán (Hungria), Beatriz Von Storch (Alemanha), Matteo Salvini (Itália), Narendra Modi (Índia) e Jair Bolsonaro (Brasil). Muitos deles(as) estão ou estiveram no poder máximo de suas respectivas nações; outros, apesar de derrotados(as) nas urnas, obtiveram expressivas votações.

Como todo processo multifacetado, não há apenas um motivo que explique essa força de políticos obscurantistas em âmbito global. No entanto, considero que quatro pontos nos ajudam a compreender a questão.

O primeiro ponto se refere a uma das máximas do pensamento marxista: em tempos de crise econômica (como o atual), o fascismo é a carta acionada quando os tradicionais políticos burgueses já não dão mais conta de manter os lucros dos grandes capitalistas e a exploração da classe trabalhadora. Foi o que ocorreu, por exemplo, na primeira metade do século passado, com as chegadas ao poder de Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha. É o caso de Bolsonaro aqui no Brasil.

Porém, isso não se aplica a Trump, haja vista que o republicano, nas duas vezes em que disputou a eleição presidencial estadunidense, em 2016 e 2020, não era o “candidato oficial” do capital hegemônico. Assim, o ex-mandatário da Casa Branca se encaixa em dois dos outros três pressupostos para a ascensão da extrema direita: utilização bem-sucedida das redes sociais, abandono da pauta “luta de classes” por parte da esquerda e distanciamento da Igreja Católica em relação a população pobre.

A extrema direita (tal como a esquerda mais combativa, sem voz nos tradicionais veículos de comunicação) encontrou na internet um terreno fértil para propagar suas ideias e narrativas (as famosas “fake news”). Via redes sociais, todo tipo de obscurantismo pôde sair do armário; perfis bolsonaristas e trumpistas (sejam pessoas reais ou bots) se sentem bastante à vontade para despejar ódios e devaneios. No entanto, é importante frisar que a internet é apenas o “meio”. Uma análise holística sobre a revitalização da extrema direita deve ser respaldada na realidade concreta.

Ultimamente, setores da esquerda (sobretudo, os chamados “pós-modernos”) abandonaram a luta de classes e outras pautas ligadas às questões materiais e à sobrevivência cotidiana. Além disso, adotam linguagens e discursos academicistas; inteligíveis e desconectados da realidade da população pobre.

Aproveitando esse vácuo, políticos de extrema direita têm cada vez mais adotado retóricas demagógicas, prometendo “soluções” simples para problemas inerentemente complexos, como desemprego, inflação, moradia e segurança pública. Se há crise, a culpa é do imigrante! Aumentaram os índices de violência, prendam mais pessoas! Não por acaso, um dos principais redutos eleitorais de Marina Le Pen está no norte da França, histórica região de concentração da classe operária daquele país. O mesmo motivo explica a popularidade de Trump entre trabalhadores brancos e pobres dos Estados Unidos.

Também a Igreja Católica se distanciou dos pobres. Não que esta secular instituição seja, necessariamente, de esquerda. Mas uma de suas alas que mais se aproximavam das classes populares, a Teologia da Libertação, foi implacavelmente perseguida por setores conservadores do Vaticano. Resultado: com o afastamento católico, os pobres ficaram vulneráveis a uma outra teologia: a Teologia da Prosperidade, adotada por algumas igrejas neopentecostais.

Lembrando o clássico livro O dogma de Cristo, de Erich Fromm, a “dualidade” do Deus cristão – “mau” no Antigo Testamento e “bom” no Novo Testamento – permite que tanto discursos de união quanto de ódio a determinados grupos possam ser justificados pela mesma Bíblia.

Esses discursos de ódio, a partir de leituras bíblicas fundamentalistas, somados a apologia à meritocracia (“Deus me ajudou porque mereci”), se encaixam perfeitamente ao projeto fascista/neoliberal do governo Bolsonaro. A aliança entre o atual presidente e certos líderes evangélicos não é apenas conveniência. Há afinidade de valores e ideias. Como dito, a ascensão global da extrema direita é um fenômeno complexo; muitos condicionantes não foram aqui esboçados. Os fascistas saíram do armário, foram tirados da coleira e não querem voltar.

Nesse sentido, podemos concluir que, mesmo Bolsonaro não sendo reeleito em outubro, não representará o fim do bolsonarismo. Portanto, temos um longo e complicado processo para que o fascismo, enfim, retorne para o esgoto de onde jamais deveria ter saído.


Francisco Fernandes Ladeira

Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de nove livros. .
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