Francisco Fernandes Ladeira

Mestre e doutorando em Geografia. Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade. Autor de nove livros.

Sucesso e fracasso escolar para Bernard Charlot

Levar em conta apenas a condição social, significa concluir que o aluno da classe baixa está automaticamente condenado ao fracasso escolar. Ainda de acordo com essa lógica, o mero pertencimento aos setores mais favorecidos, por si só, já garante o sucesso escolar. Por outro lado, deixar de considerar a classe social é admitir que o sucesso escolar depende exclusivamente do esforço individual do aluno (como se fosse algo normal e lógico), o que dá margens a discursos que fazem apologia à chamada “meritocracia”, responsável por corroborar no plano ideológico todo tipo de desigualdade social.


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O professor francês radicado no Brasil, Bernard Charlot, ao longo de sua trajetória acadêmica, buscou compreender as situações e os processos responsáveis pelo sucesso ou fracasso escolar.

Segundo Charlot, a possibilidade do fracasso é inerente ao próprio processo de aprendizagem, haja vista que nós, seres humanos, não vivemos sem aprender e, quando aprendemos, ocasionalmente, fracassamos. Também é importante frisar que a aprendizagem não está relacionada apenas ao campo pedagógico, pois também se constitui em um problema social e econômico.

Para melhor ilustrar a temática analisada, o autor, em sua obra “Sucesso escolar: visões e proposições”, traçou um breve histórico sobre a questão do fracasso escolar, a partir de três momentos.

No primeiro momento – quando a maior parte da população era formada por indivíduos não alfabetizados ou que não havia finalizado a instrução primária – ainda não se falava em fracasso escolar, pois o mesmo não era responsável por problema social algum.

O segundo momento caracterizava-se pelo fato de a maioria da população completar até nove anos de escolaridade, sem, porém, prosseguir estudando no ensino médio, tampouco no ensino superior. Também nesse período o fracasso escolar não era, necessariamente, sinônimo de fracasso social, pois, no mercado de trabalho, tanto formal quanto informal, os saberes adquiridos na escola ainda não eram muito úteis.

Já para o terceiro momento, que coincide com a chamada “sociedade informatizada”, espera-se que todos os jovens de uma geração concluam o ensino médio tradicional, técnico ou profissionalizante. O indivíduo que, porventura, não consiga atingir esse objetivo, logo é considerado em situação de fracasso escolar. Desse modo, ele enfrentará muitas dificuldades para ter uma vida considerada como normal, correndo o risco de ficar desemprego.

Diante dessa realidade, muitos governos trabalharam para melhorar o nível de educação e formação da população, o que requer definir recursos e métodos para otimizar a qualidade e a eficácia do ensino e das escolas. Charlot também analisou criticamente as duas configurações conceituais pensadas para compreender a dicotomia sucesso/fracasso escolar.

A primeira configuração relaciona a aprendizagem à noção de “dom” – isto é, à capacidade intelectual de aprender, considerada natural a um indivíduo. Trata-se de uma concepção falaciosa. De acordo com o autor, “atribuir a supostos dons diferenças de comportamento ou de atuação que podem ser explicadas por diferenças entre as condições de vida e entre as histórias dos sujeitos é correr o risco de ocultar desigualdades sociais indubitáveis atrás de supostas diferenças naturais”.

A segunda configuração pensada para compreender o êxito ou o insucesso escolar gira em torno da noção de reprodução social. Segundo essa linha de pensamento, na ordem social capitalista/burguesa, a escola tem o estratégico papel de contribuir para a reprodução da desigualdade social.

Sendo assim, o fracasso escolar é funcional ao próprio andamento das relações sociais. O fracasso dos filhos das classes desfavorecidas é um sucesso social das classes dominantes, sendo que o perfil de bom aluno traçado pelos professores se fundamenta em padrões dificilmente alcançáveis pela criança pobre.

O grande mérito histórico dessas teorias da reprodução foi chamar a atenção para o fato de que os conteúdos e formas escolares não são neutros, visto que a escola não está alheia aos processos de dominação social.

Todavia, apesar da inegável importância das teorias da reprodução, Charlot adverte que uma questão ainda permanece em aberto: por que, entre estudantes expostos ao mesmo ensino, nos mesmos estabelecimentos, com os mesmos professores, nas mesmas condições, diferem tanto nos níveis de sucesso?

Ao buscar responder à pergunta proposta, o docente francês admite que a desigualdade social, dentro e fora da escola, é fato, mas tal premissa não explica tudo, tornando-se assim insuficiente. A desigualdade escolar repousa sobre bases sociais objetivas, produzindo seus efeitos por intermédio de processos subjetivos.

Isso significa que também deve-se levar em consideração o sentido que o aluno confere, subjetivamente, à posição social objetiva que ocupa e compreender o que acontece quando uma pessoa se envolve em um ato de aprendizagem, em particular quando se trata da criança e da escola.

Sendo assim, além dos condicionamentos estruturais, Charlot apresenta como fatores essenciais para analisar a dicotomia fracasso/sucesso escolar, a mobilização familiar, as interações de um aluno com professores e colegas e os valores e significados que o discente concede para um determinado conteúdo escolar e a para a própria escola enquanto instituição.

Entre as medidas adotadas para combater o fracasso escolar, Charlot cita exemplos propostos na França e na Inglaterra a partir da chamada “descriminação positiva” – ou seja, proporcionar maiores oportunidades educacionais a grupos historicamente desfavorecidos, atribuindo mais verbas a escolas ou áreas socialmente prioritárias – e a reforma do ensino de matemática e ciência nos Estados Unidos, que visava levar para os alunos, sobretudo aqueles pertencentes às minorias sociais, um saber constituído, socializado, predeterminado, que proporcionasse o acompanhamento de suas experiências, descobertas e investigações.

No entanto, é importante frisar que, levar em conta apenas a condição social, significa concluir que o aluno da classe baixa está automaticamente condenado ao fracasso escolar. Ainda de acordo com essa lógica, o mero pertencimento aos setores mais favorecidos, por si só, já garante o sucesso escolar.

Por outro lado, deixar de considerar a classe social é admitir que o sucesso escolar depende exclusivamente do esforço individual do aluno (como se fosse algo normal e lógico), o que dá margens a discursos que fazem apologia à chamada “meritocracia”, responsável por corroborar no plano ideológico todo tipo de desigualdade social.


Francisco Fernandes Ladeira

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