oeduardocabraldigitou

e deixou aí para quem quiser ler

Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução.

O nosso dissimulado mercado de relacionamentos

Sabe aqueles protocolos sociais que aprendemos desde sempre? Falar que gostamos do presente ruim porque é educado ser assim, falar que o pior defeito é a honestidade e o perfeccionismo na entrevista de trabalho, dizer que nunca traiu e está perdidamente apaixonado para - finalmente, conseguir transar; então, se sabemos e conhecemos todas estas receitas de bolo, por que ainda caímos e cozinhamos essa cultura entre nós?


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Já nascemos dissimulados. Desde pequenos, quando atendemos o telefone e e avisamos para a pessoa quem é que ligou e quer falar e respondemos que ela não esta, mesmo tendo recebido esta ordem de alguém que está diante dos nossos olhos, já aprendemos a mentir por meio de verdades inventadas. Quando mentimos a idade para que nossos pais pagássemos menos em determinadas atrações ou algo do tipo, aprendemos que, pensar o certo é pensar em você, e, dali, perdemos o senso crítico ou, então, de sociedade, logo, começamos amadurecer este lado dissimulado desde pequeno.

Hoje em dia, no mercado de relacionamentos, os protocolos imperam. Podemos começar por entrevistas de emprego, onde, de forma surpreendente, o pior defeito de qualquer candidato sempre é uma brilhante qualidade. Muitos são perfectionistas e outros são justos demais, nunca vi uma história de alguém falar que perde a calma rápido, bebe demais, às vezes arruma atestado falto para faltar, tem dia que não consegue simular e dizer ‘bom dia’ para quem não gosta: protocolos.

Nos relacionamentos pessoais a coisa é mais engraçada. Todos sabemos nos fantasiar muito bem das boas intenções que o outro quer e precisa sentir. Dissimulados que somos, aprendemos que o caminho mais curto para conquistar um objetivo é ser exatamente aquilo que o outro espera, e não o que somos. Então aprendemos a criar expectativas e a manipular estas em prol dos nossos objetivos.

Protocolamos isso como base fundamental para nos relacionar, afinal, é o que nos transmite segurança quando conhecemos alguém. Um cara bacana é aquele que tem planos para o futuro, que transmite a ideia de ser estável, paciente e carinhoso. É válido ressaltar que, um psicopata, por exemplo, nunca fala a palavra psicopata - se é que isto lhe faz algum sentido nesta neurótica leitura sobre você e o outro. Uma mulher, para parecer interessante, deve criticar todas as outras que um dia já foi, ou que queria ser, fortalecendo o machismo e consolidando uma imagem de que ela é muito parecida com o outro, que é, no fim das contas, o que(m) ela procura.

Se você olhar de forma fria, parece que menciono casos isolados, únicos e que todos este blá-blá-blá não faz e não tem sentido nenhum, mas observe o quão canalha é a sua mente, como ela opera, não só analisando esta leitura, mas no seu dia-a-dia, como o seu tom de voz, vocabulário e postura mudam ao decorrer do dia e das pessoas que cruzam seu caminho. O caráter de uma pessoa é sempre evidenciado pela forma como ela trata aquelas que não podem lhe oferecer nada, já as que podem, a gente aprendeu desde cedo que, o mais fácil é se adaptar - leia-se: ser dissimulado, e conseguir exatamente aquilo que a gente quer.

Não existe um grande fechamento para esta teoria. Na minha opinião, mulheres acabam por sofrer mais do que homens porque, além do machismo injetado em nosso DNA, todas sofrem uma cobrança cultural de ter, até determinada altura da vida, um par, um outro - e chega um momento que “é preciso”, se não as consequências já vivenciadas dos olhares de roupa curta e de xingamentos mentais, se tornaram um nada perto dos novos preconceitos.

Para os homens, a coisa é mais blindada, sempre. Eu falo por mim. Sei que se engravidar uma menina por falta de cuidado meu e dela, a culpa vai ser dela. Que a sociedade vai se identificar mais com o meu erro do que com o dela, e de que a justiça nacional vai me 'apoiar’ muito mais na enorme demora e nas míseras pensões, até porque, eu escolho se vou ter ou não um filho, logo, esse jogo de ser dissimulado - para o universo masculino, é muito mais fácil e, mesmo assim, continuamos melhorando nossas respectivas performances.

Já para o mercado de trabalho, eu acho que isso acaba com tudo. Pessoas infelizes em empregos, reclamando no horário do almoço, descontentes com o mundo, treinando cada vez mais os métodos de vaselina que desencadearam da infância, passaram pela entrevista e agora, por necessidades financeiras, precisam manter as contas em dia então mantém o sorriso na cara e o ódio no bolso, do lado do holerite.

O resultado disso são rotinas de merda, com homens, mulheres e profissionais encenando de forma catastrófica, cenas mal interpretadas, nitidamente decoradas e que todos, a plateia e os próprios atores e figurantes - que muitas vezes se confundem, sabem que está tudo errado.

Se existisse ou se todos prezassem por uma maior sinceridade, cumplicidade e, principalmente, coerência - manter e ter ética consigo, a gente não teria um mundo tão cheio de gente infeliz simulando que as coisas estão as mil maravilhas.


Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução..
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