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e deixou aí para quem quiser ler

Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução.

Um vírus chamado sucesso

Mais perto dos trinta, percebo que a ideia imaginária de ter sucesso só funciona até a página dois. Como um vírus, a pequena célula de sucesso contamina a todos ainda quando jovens, começando com a criação de ideias impossíveis de se atingir mas que são extremamente fáceis de se frustrar. Eis aqui um amontoado de palavras para se blindar de ciladas mentais e culturais antes que seja tarde demais para se pensar em outra coisa:


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Quando pequenos, ficamos imaginando como vai ser a nossa vida ao passar dos anos. Imaginamos a maravilha em ser se tornar maior de idade, os dezoito, período imaginário em que seremos independentes e conquistaremos tudo aquilo que os outros nos combateram e impediram.

Bem, ao chegar lá, notamos que as coisas não são bem assim. Surgem mais responsabilidades, algumas piadas deixam de ser piadas e, antes o que parecia ter graça, agora tem consequências.

Tudo bem, somos inconformados e logo criamos um novo escape. Agora é a hora de começamos a imaginar os 'vinte e poucos anos': a idade subjetiva quem também é dotada de conquistas. A ideia de ser "qualquer vinte" é segura, da aquela sensação gostosa de que 'ainda dá tempo'.

O problema é que quando passamos da conta e o vinte começa a ficar perto dos trinta, surge a pressão. Invisível e incolor, tem o mesmo impacto de um choque de realidade, só que com efeitos colaterais totalmente negativos para aquilo que ainda vamos viver. Pressão é aquilo que entra em combustão com o sucesso, principalmente daqueles que são bem padrões.

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A ideia de sucesso é uma coisa assustadora, difícil de ser destruída mas fácil de ser alterada. Independente da idade que você tenha, esta é a maior mentira que ainda acreditamos. O sucesso começa a ser cultivado nos discursos mais antigos, que vão desde os conselhos de professores até aqueles extensos parágrafos emocionais ditados por familiares que valorizam oportunidades e acreditam que construíram um mundo melhor para as próximas gerações desfrutarem. Eu não sou contra a teoria impregnada nesta ideia, me agrada bastante, o grande problema é a prática que se da quando chegamos mais perto do três de trinta.

Mais perto dos 30 e com menos da metade dos meus objetivos, visões e sonhos realizados, ao conversar com amigos sobre o futuro, vejo o quão prejudicial essa cultura ainda praticada foi para todos. A ideia de sucesso, dinheiro, ser provedor(a), ter casa própria, achar alguém legal, ter o carro bacana, viajar, ser bem empregado, ser reconhecido, mostrar que vive a vida e ainda ter tempo para pensar é sufocante como ler este parágrafo todo sem vírgulas.

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Conversas de bar parecendo entrevistas de emprego e almoço entre amigos parecendo rinha de pavão são alguns dos sintomas do vírus.

A ideia de sucesso é antiga e atual - ao mesmo tempo. Se atualiza com muita facilidade e, ao que tudo indica, nós temos baixa imunidade contra ela. Nos deixamos contaminar entre falsos elogios e reconhecimento em nosso círculo familiar e social, e esta é a pior mentira e o pior jeito de cultivar a ideia mais corrosiva entre nós.

Esquecemos que é o sucesso que faz com que dias de jovens sejam curtos e o de velhos sejam longos. Boa parte de nossas vidas é consumida por essa ideia, a de correr atrás do prejuízo, a do senso de urgência de que ainda da tempo, de que 'apesar dos pesares' tudo vai passar e dar certo.

Pois bem, senta aqui que essa ideia de tirar um período sabático para amenizar o combate a depressão ou se intitular consultor/freelancer para não descobrirem que você está desempregado pode até funcionar, mas perceba que no fim, é você quem se torna refém disso. A ambição é prima do sucesso, mas infelizmente não sabemos dosar, passamos do limite e atropelamos a nós mesmos com essa nossa impaciência. Deixamos que elogios de currículo se tornem mais importante daqueles que recebemos de amigos, que a ideia de viver a vida loucamente estampe a falsa sensação de transparência e tranquilidade despojada que queremos ter. Nos atacamos numa guerra fria de sentimentos e sensações, todas veladas e fadadas a um inalcançável sucesso que um dia alguém viu na TV.

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A racionalidade é uma cela que quando apresentada ao sucesso vira a nossa grande prisão.

Baixar a guarda para a fragilidade de não saber, não entender, nunca ter visto e não estar bem é o primeiro passo para a quebra desta cultura. É um jeito de tirarmos a invisível armadura que tanto nos machuca. Forma simples, mas que demanda equilíbrio e sensatez em não achar um grande problema estar sem emprego, ter quase trina e não ter planos para casar, ter trina e três e nem imaginar ter filhos ou ter quase quarenta e querer mudar de área.

Por uma mesa rodeada de pessoas sem vaidades e felizes em estarem descontentes com a vida.


Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução..
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