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e deixou aí para quem quiser ler

Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução.

Quero um filho de presente

Penso em me presentear com um filho, em ver um alguém misturado de todas as pessoas que eu gosto e admiro ser idealizado e de fato realizado. Me dar este presente tem sido um pensamento recorrente, talvez pela idade que se aproxima das três décadas ou apenas pelos falsos sentidos consumistas que não tem mais suprido meus pensamentos existencialistas de um mundo que se consome sem sentir o gosto. Sem rodeios, um artigo para quem tem se perdido em pensamentos que oscilam entre ter uma família sem ainda ter alguém para começar uma - vale a leitura:


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Não é com esta irresponsabilidade do título que pretendo tratar o tema, para ser sincero, a chamada só foi escrita desta forma para angariar cliques e, consequentemente, disseminar a ideia entre todos os bravos leitores que ainda resistem a leitura de alguns parágrafos em tempos de coisas tão rápidas e descartáveis, mas nos aprofundaremos nesta segunda pauta num outro devaneio escrito, a princípio, vamos nos ater a ideia de ter um filho de presente.

Quero me presentear com um filho. Não quero presentear o mundo, inclusive, apensando por este víeis, levando em consideração o caos que é crescer em meio a todas estas coisas que nos cercam, gera um certo medo incluir mais alguém nesta bagunça global que tanto cultivamos. Por este motivo a premissa é partir da perspectiva que quero me dar de presente um alguém que vou construir inteirinho, não só este alguém, mas tudo aquilo de bom que se agrega junto, a parceira - ou parceiro - que vem junto e acompanha os mínimos detalhes, as famílias que se unem e ficam por perto em função de cada espirro e, claro, os problemas que fortalecem e fazem tudo aquilo que cerca a pequena vida em volta crescer junto.

A grande questão é que criar uma vida é dar sentido para aquela que faz o outro caminhar, e é ensinando que a gente realmente aprende, pelo menos esta é a melhor forma que funciona comigo. Se apoiando nesta teoria que se mostra tão verdadeira, com um presente como um filho, conforme se educa e se ama, consequentemente você se torna muito melhor em tudo isso que ensina, e de quebra, ainda esta criando uma cópia dos teus melhores valores, do teu lado do espelho que você quer ver refletir numa sociedade que as vezes não reflete seu melhor lado.

Penso nisso hoje em dia por motivos que se conectam com o parágrafo de abertura desta publicação. Hoje tudo é rápido. Hoje tudo é passageiro. Somos passagem uns dos outros. Estamos, somos, éramos e vivemos projetando e competindo. Para que? Vejo muitos amigos e amigas que já beiram seus trinta e nitidamente estão fortemente contaminados com a 'síndrome dos dezenove anos' e - nada contra, mas uma hora a geração 'Y' vai ter que assumir algum tipo de responsabilidade e largar um pouco a saia da mãe. Os predominantes dilemas que oscilam entre aproveitar a vida loucamente como a geração que veio para revolucionar o comportamento humano e as contraditórias crises existencialistas de que o mercado de trabalho é cruel demais para se viver são totalmente incoerentes com as noites de ressaca e as prioridades escaladas em ordem alfabética na frente do bar pelos próprios locutores.

Numa roda de amigos é comum ver a angustia franzindo a testa um dos outros quando o assunto se relaciona aos parentes amados que estão morrendo pela idade e pelo simples fato de que a gente não está fazendo nada para evitar, amenizar ou contornar isso. Sabemos que o tempo esta passando, sabemos que a idade esta os consumindo e sabemos que há pouco tempo, mas não fazemos nada e, sinceramente, reclamamos por isso na comodidade sem buscar nenhum tipo de ação. Não sei se paralisados por medo ou pelo egoísmo, talvez a gente tenha apenas se acostumado com o fato das coisas acabarem apenas quando se desconectam e então realizamos que aquilo não tem volta, e infelizmente nos acostumamos a adquirir novas, num ciclo de renovação e descarte sem fim, onde tudo tem um certo valor e validade, mas na essência, nenhum sentido. As coisas são produzidas para no fim, apenas serem trocadas por outras coisas.

Isto faz com que às vezes eu entre em algumas questões de reflexão sobre projetos de vida, de questionar o rumo do dia-a-dia, e é aí que me surge 'ela', a mulher idealizada ainda não presente que pretendo namorar e morar junto, tudo isso para, finalmente, ter um filho. Num apartamento não muito grande, no coração da cidade, para acordar antes do sol e testemunhar, diariamente, aquele projetinho que montou o que dizem ser uma família, abrir os olhos e fazer barulho, trazendo mais sentido para a rotina dos dois novos pais e mães que alternam os papéis.

Acredito que a ideia de se presentear/ter um filho é ter mais sentido para a vida, para as conversas de almoço corporativo, para as reuniões de negócios que, às vezes de tão negócio, se tornam, apenas: negócios, para os problemas, as angústias e o estresse, e todas as outras invisíveis e atuais armas que mais atacam a sociedade que se protege com tecnologia sem mensurar os efeitos colaterais. Acredito sinceramente que um filho de mais sentido até para bares, jantares, vida social, pontos turísticos, risadas e até aquelas contas que resmungamos quando pagamos.

Acho que numa lista de prioridades, ter um filho não é a primeira, afinal, existe todo um caminho para se construir até chegar lá. Encontrar alguém é o primeiro e único passo, acredito eu. Riscar todos os outros milhares de sonhos como ‘feitos’ antes de ter um filho é uma coisa quase que impossível de se fazer, por esta razão virou algo automático entre nós, acho que fazemos de propósito para sempre nos distanciarmos da ideia de que sim, é animal ter uma vida que depende da sua, criar uma forma e visão de mundo.

O único passo é ter alguém, daquelas que seja parceira de crime, gangue de dois, que tope a vida como um projeto cheio de novos sentidos a cada novo desafio e curva, não que surgiu em uma pontualidade ou que seja apenas uma vírgula em toda nossa história ainda em construção. Não acredito em sequências matemáticas exigidas pelo nosso inconsciente que tenta racionalizar e planejar tudo dentro de uma cadeia mental, nos dizendo que é necessário namorar X anos, casar X anos, morar junto X anos e então ter um filho com no máximo X anos. Estabilidade financeira para ter um filho ninguém nunca vai ter, porque quanto menos se tem ou mais se ganha, mais se sobe o nível ou mais se precisa e, certamente, criar uma vida vai exigir de você muito menos egoísmo do que antes, seja financeiro, como de tempo, prioridades e escolhas.

Penso em me presentear com um filho, em ver um alguém misturado de todas as pessoas que eu gosto e admiro ser idealizado e de fato realizado. Me dar este presente tem sido um pensamento recorrente, talvez pela idade e pelos falsos sentidos consumistas que não tem mais suprido meus pensamentos existencialistas de um mundo que se consome sem sentir o gosto. Que presente você se daria?


Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução..
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