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e deixou aí para quem quiser ler

Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução.

O medo de ser adulto

Hoje, entre discursos furados, pratos mal lavados e amigos desempregados, os novos jovens de quase 40 anos fazem as malas para melhorar o inglês num intercâmbio que os pais asseguram que vai ajudar na carreira. Chegou a hora de falarmos sobre as gerações já quase formadas pela internet, com um legado vindo de redes sociais que completam décadas de existência e que já fazem parte integral do nosso comportamento, estamos cheios de Peter Pans entre nós - um recorte que vale a leitura:


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Quando crianças, o nosso maior sonho é crescer. Em nos tornarmos aqueles jovens adultos cheios de coisas legais para fazer, cheios de liberdade, poderes, decisões e escolhas sobre a própria vida. É algo que realmente deslumbra, afinal, testemunhamos tudo aquilo sem muito entender que o carro que se dirige, o telefone que se atende e aquele horário que se chega em casa todo dia, são, na verdade, fruto de uma porção de concessões que nem todo mundo terá envergadura para, diariamente, digerir como rotina. Esta realidade independe de números, nestes casos, o ano de nascimento pouco importa, mais do que idade, é preciso coragem para se adquirir maturidade em ser adulto.

Depois que crescemos, nosso maior sonho é ser jovem, ou se manter o mais jovial possível, dentro de um limite aceitável, claro. Mas partindo do principio de que esta contradição da linha do tempo é uma vontade universal, onde ninguém quer envelhecer, convenhamos que o mundo, assim como empresas e mecanismos que por aqui operam, também irão trabalhar para apoiar e incentivar este tipo de comportamento em prol do consumo para melhor fisgar todos nós, não é mesmo?

Pensando em safras que, cada vez mais, tentam parecer mais novas, envelhecer menos e aproveitar cada ano como se tivessem 800 dias com mais de 48 horas cada, comecei a perceber que o discurso que tanto enche o peito daqueles que se intitulam a ‘geração Y’, ‘Z’, ou qualquer outra letra do alfabeto é, na verdade, uma mistura de síndrome de Peter Pan com todas as campanhas publicitárias e avançadas tecnologias que hoje são disponibilizadas para nós quase que em tempo real.

Confuso? Calma, vou explicar meu ponto e vamos conversar sobre.

Midiaticamente falando, grandes marcas colocam os jovens como os grandes locutores do futuro. O que não é nem um pouco diferente do que se faziam no passado, afinal, o público alvo que mais vai viver e que, consequentemente, mais vai consumir são os jovens. Para tanto, as marcas sabem que é necessário adotar um discurso que engaje e que faça com que todos acreditem na publicidade que precisa ser vendida transvestida de verdade, de ideologia.

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Por que não vender um novo estilo que vida que prioriza o consumo desenfreado enquanto, de forma contraditória, diz otimizar serviços e ferramentas? Por que não, ir contra um movimento opressor que estipula o que é ser bonito e, também de forma contraditória, criar uma adoração pelo próprio corpo? Para cada nova ação, inúmeras reações sem mensuração são sempre produzidas e seus impactos nunca são discutidos porque não é do interesse de marcas automotivas, de celular, shakes, roupas e bebidas, falar sobre estes possíveis rebotes sociais.

Pode não parecer, mas o estilo que hoje temos foi adquirido de uma safra de enlatados produzido há muito tempo, compramos sem nem perceber.

A síndrome do Peter Pan se caracteriza por comportamentos imaturos, não condizentes com a própria idade. Mas para uma geração que consegue acreditar que ‘os 30 são os novos 20’, fica difícil separar crianças de adultos. Nada se relaciona a idade e maturidade, não acredito que haja relação nisso, mas acredito friamente que as experiências, seja com 18 ou 38 anos, e a forma como encaramos aquilo é que vai nos formar como pessoa. Mas com tantas oscilações e possibilidades, como saber se estamos amadurecendo, crescendo e realmente nos tornando adultos? Se até as gerações acima, como pais e avós, também acreditam no discurso que coloca os jovens num pedestal de coerência absoluta por toda e qualquer escolha?

Antes que você suspeite, não, eu não tenho 94 anos e não escrevo isto de uma máquina de escrever. Todo este emaranhado de pensamentos surge quando vejo amigos e amigas reclamarem sobre a vida, o mercado de trabalho, as pessoas e o mundo enquanto, literalmente, permanecem imóveis.

Reclamam como se não houvesse amanhã mas com tempo o bastante para curtir a noite.

O incomodo se agrava quando vejo o quão vítima somos de um sistema que induz uma safra de cabeças jovens e pensantes a enquadrarem suas mentes em aplicativos e comportamentos padronizados, achando que estão vivendo algo diferente e fazendo arte. Resgatando os principais sintomas da síndrome de Peter Pan, além da irresponsabilidade, a rebeldia, dependência e o narcisismo são os principais pontos que se evidenciam em quem mais tenta negar o amadurecimento.

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Associe este comportamento à tecnologia. As redes sociais acabam por aflorar o infantilismo mais cínico que existe em nós, onde tiramos foto de um por do sol e compartilhamos com marcações para mostrar o quão bonito foi uma tarde nada memorável. Fazer por fazer, para passar o tempo, não seria um problema, a grande questão é a dependência, que também é um sintoma da síndrome e do medo de crescer. Se apegar a mecanismos bobos, de falar frases, fazer piadas, cutucar amigos, ter conversas vazias, xavecar outras pessoas e comentar e ser audiência de banalidades o dia todo.

Recentemente cometi um suicídio das redes sociais e, em determinada altura, resolvi dar uma zapeada no que estava rolando. Não é necessário ter conta, afinal, o mecanismo tenta te atrair ao máximo, tirando a privacidade dos usuários e fomentando o vouyerismo entre usuários. Tenho tido alguns problemas de gente grande ultimamente e, talvez, ver um amigo que tem a mesma idade que eu postar uma foto de um picolé perto de um sol com o objetivo de comemorar o domingo na praia, não seja a melhor maneira de saber dele.

Nesta rápida zapeada, foi possível ver alguns poucos comportamentos. A carência entre os que não querem crescer é grande. A sede por atenção. Usuários que postam mensagens pela metade no intuito de provocar estímulo para curiosos que o contatem para ele ter com quem conversar, como por exemplo, o clássico amigo de Facebook que da um check-in no pronto socorro, avisando 856 pessoas que esta no hospital, mas sem detalhes, não avisa que na verdade esta acompanhando a prima, ele deixa o show (ES)correr.

A essência da maioria das redes sociais é positiva, o objetivo é a comunicação multiplataforma e multicultural, a acessibilidade, o problema é que usamos as coisas certas para banalidades erradas, e pagamos um preço alto por isso. Uma série que retrata muito bem, de forma futurista e perturbadora, é a britânica 'Black Mirror', expondo feridas que vão desde nossa ideologia furada e totalmente vendida, até a sede pela atenção e a tensão provocada pelo comportamento digital em massa, causando uma espécie de vírus invisível que gera efeitos colaterais reais, como depressão, dependência, toques e angústias.

A síndrome de Peter Pan é um distúrbio comum em crianças que foram superprotegidas, por esta razão, acho que esta extensa publicação pode, em certo ponto, causar algum tipo de desconforto na leitura, e acredito que seja positivo. Gerar discussão e inquietação é um bom resultado, o ruim é apenas ficar parado, na inércia do que dizem, do que foi e do que é.

Hoje, entre discursos furados, pratos mal lavados e amigos desempregados, jovens de quase 40 anos fazem as malas para melhorar o inglês num intercâmbio que vai ajudar na carreira. Em breve teremos gerações formadas pela internet, com um legado vindo de redes sociais que completam décadas de existência e que já fazem parte integral do nosso comportamento.

Talvez seja hora do Peter Pan criar coragem e romper o medo que o separa do amadurecimento. O mundo pode não ser tão mágico e gracioso quanto se espera, afinal, filmes e músicas não são uma tradução fiel, mas crescer é um processo, cheio de voltas, a gente não se perde quando sabemos – fato, quem realmente somos, mas que é preciso assumir algumas responsabilidades, riscos e desafios, certamente, até porque, a geração de pais dos eternos adolescentes que hoje aqui habitam, um dia vai deixar de existir, e quem é que vai pagar por tudo isso depois?


Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução..
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