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e deixou aí para quem quiser ler

Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução.

precisamos falar sobre ela

Existe uma doença que faz com que os dias pareçam suportar mais horas do que o normal e isso da pior forma possível. Não é como quando você deseja mais tempo para aquilo que dá alegria. O que essa doença faz é se comprometer com aquilo que vai lhe proporcionar justamente o oposto, pois retira o prazer de tudo aquilo que você faz e esgota toda a sua vontade de fazer algo novo. Precisamos falar sobre a depressão, um relato de quem luta diariamente contra isso:


slide_443082_5868626_compressed.jpg Existe uma doença que faz com que os dias pareçam suportar mais horas do que o normal e isso da pior forma possível. Não é como quando você deseja mais tempo para aquilo que dá alegria.

O que essa doença faz é se comprometer com aquilo que vai lhe proporcionar justamente o oposto, pois retira o prazer de tudo aquilo que você faz e esgota toda a sua vontade de fazer algo novo.

Fazem alguns meses, passei por ela num dos piores períodos da minha vida. Vivi meses que pareceram anos, noites que duraram dias e horas recheadas de milhares de minutos. Não foi muito fácil enfrentar algo que, até então, eu desconhecia.

É difícil digerir a ideia de que temos depressão. Afinal, trata-se de uma doença muito negligenciada, tanto por conta da nossa cultura de 'manha e doce', como por causa de médicos que não tem qualificação para diagnostica-la, distribuindo receitas e fórmulas mágicas que engordam cada vez mais a ganância da industria farmacêutica.

Percebi que não estava nem um pouco bem quando me vi só. Quando me fechei totalmente naquilo onde mais sentia segurança, na minha solidão. Todo e qualquer esforço das pessoas em se comunicarem comigo era em vão, pois eu vivia com medo, inseguro em relação ao que era e ao que queria ser. O cara comunicativo e confiante de suas ideias e posturas estava totalmente enfraquecido, cheio de receios e este alguém não era quem eu queria ser ou mostrar para o mundo.

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Parece superficial, mas a doença também trouxe para mim o receio de parecer algo que eu não era para os outros. Logo, isso me fez começar a dedicar meus pensamentos para possibilidades incontroláveis, como imaginar o que as pessoas estariam pensando de mim em todas as situações que eu me sentia observado.

Sabia que não estava bem e por alguns momentos tentei sinalizar aquilo que nem eu entendia para quem amava, amigos e amigas, mas a cegueira que vivemos hoje numa sociedade egocêntrica, cheia de informação e vazia de conhecimento, fez com que a maioria não percebesse aquilo pelo que eu passava. E eu não sabia ao certo como ser claro, pois eu só sentia e ninguém havia me explicado.

Meu primeiro conforto foi junto a minha família. Alguns sem entenderem o que eu sentia, porque não sorria e porque minhas noites pareciam sufocantes, perguntavam sobre meus sentimentos sem esperar muito. Na verdade, todos queriam ajudar, me ouvir e prestar atenção em mim.

Encontrei, nesta jornada, uma profissional com a qual me identifiquei e depois de me certificar de que tratava-se de uma profissional qualificada, até porque, fui a outros médicos que, como boiada, me recebiam e sem nem ouvir já prescreviam qualquer remédio. A saúde mental é algo de que descuidamos totalmente hoje em dia. Mas ela é muito mais importante do que a física, pois é o que mantém tudo funcionando em sua essência.

Hoje, a doença mais devastadora do século é invisível e espalha-se entre nós de forma silenciosa e rápida, fazendo com que a gente aprenda a conviver com um guarda-roupa de máscaras tentando suportar o mundo sem admitir que as coisas não vão bem.

Nunca tudo vai estar bem, isso é impossível. Cultuar quem apresenta diariamente para a gente, que tudo isso existe, é uma tentativa de sabotar nossa própria percepção de felicidade. Um cara que admiro me abriu os olhos em um relato sobre seu surto de depressão aguda, o jornalista Ricardo Boechat. Somos definitivamente todos humanos.

A depressão é uma luta interna capaz de nos tornar o pior inimigo de nós mesmos.

Hoje, ainda me recuperando, sei do quão importante é a gente falar sobre esta invisível doença que nos ronda cotidianamente.

É difícil estar imune. E pouco importa ser bonito, bem sucedido, feliz no casamento ou possuidor de qualquer outra atribuição cultural que venda a ideia de felicidade. Por mais que a gente transmita o que finge ser, a depressão surge no mais individual e pessoal que existe, e é algo entre o seu eu e você, é singular e, por isto, nós precisamos falar sobre ela. Sempre e urgentemente.


Eduardo Lima Cabral

Eduardo tentou mas não conseguiu produzir uma biografia que não fosse clichê. Tentando fugir dos rótulos que acabavam por se apropriar de cada nova teclada para se apresentar, a ausência de uma biografia sincera e que - na teoria, descreveria quem ele realmente é, acabou por se tornar sua provisória solução..
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