olÁ olhar

Vidas, entre letras, pontos e vírgulas.

Fausto Muniz

Jornalista, Escritor. Com um pé e meio na fantasia, e dois dedos na realidade.

De volta a 2001, Uma Odisseia no Espaço, na Literatura e no Cinema

2001, Uma Odisseia no Espaço, é um livro escrito por Arthur C. Clarke e adaptado para o cinema pelo diretor Stanley Kubrick. Ambas as narrativas até hoje despertam debates e questionamentos da ordem artística, científica e filosófica.


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O que fazer quando se assiste a um filme e não se entende nada?

a) Continuar sem entender nada

b) Meter pau no filme e achar que ele é uma merda

c) Tentar entender o filme

Quando um filme vale a pena, a melhor alternativa pode ser a letra c. Ainda mais quando estamos falando de Stanley Kubrick, diretor hollywoodiano que dispensa apresentações. E essa foi minha opção, pois sabia que não se tratava de uma produção qualquer. Era simplesmente O Filme. E por isso fui atrás do romance de Arthur C. Clarke que deu origem ao título. O resultado: simplesmente uma viagem no processo evolutivo do homem e de suas razões.

Sim, suas razões. Razões?! Existe uma razão para evoluir? Existe um porquê pra sair de onde estamos e ir mais longe? Clarke nos leva incessantemente a questionar a validade dessas perguntas. A primeira hipótese, mais banal, porém não menos inteligente, é a fundamental necessidade de sobreviver. E isso, os homens-macacos do início do livro/filme provam, através da descoberta, de novas tecnologias que os impulsionassem ao crescimento próprio e ao desenvolvimento de novas habilidades. Ok, essa é a primeira resposta à pergunta.

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A segunda, um pouco mais bizarra, é o cerne da obra. É a hipótese um tanto forçada de que a origem de nossa evolução não está em nós mesmos. Sim, hora do cliché à lá Arquivo X, A Verdade Está Lá Fora. O desenvolvimento de nossa espécie está diretamente ligado à intervenção alienígena, que milenarmente esteve por aqui e ali dando pitacos em nosso cérebro através de ondas elétricas. Eles identificaram a mente como um dos mecanismos mais ricos e fascinantes da espécie terráquea e nela, através dos emblemáticos monólitos negros (paredões escuros que sempre foram a pedra no sapato quando o assunto é entender o filme de kubrick), despejaram uma série de estímulos que nos forçaram a expandir o potencial de nossa massa encefálica.

A forma direta, objetiva, detalhada como esse progresso aconteceu não é possível de ser delineada ao certo, mas o resultado é que os homens-macacos deram um salto quando descobriram novas utilidades para os ossos de suas presas. A partir desse ponto, o livro avança milhões de anos para mostrar que em diversas épocas da existência humana o nosso desenvolvimento foi impulsionado por uma inteligência incalculavelmente mais avançada que a nossa. A grosso modo, é como se estivéssemos aprendendo com os mais velhos, mais experientes, o tempo todo.

É válida a premissa, mas contraria o pensamento religioso que predomina no planeta, apesar de o próprio livro cogitar a possibilidade, levantada por uma corrente de cientistas, que defende a existência de um espírito, isto é, o ser humano sem carne, sem matéria, como a forma mais evoluída do homem. O que estivesse além disso poderia ser o próprio Deus.

Mas 2001 é uma obra fascinante não apenas pelo estrondoso questionamento que ela nos provoca, as razões de nossa evolução, mas também por sua numerosa quantidade de informações. É uma verdadeira aula de ficção-científica, que tenta o tempo todo se revestir de uma veracidade impressionante; de um propósito incessante de parecer crível, realista, embasada cientificamente. Saímos do planeta Terra e desbravamos o ambiente extraterrestre de maneira lúcida, até mesmo didática, e que nos tenta incessantemente conduzir a uma visão madura dessas fronteiras distantes de nosso dia dia.

Desbravar fronteiras (internas e externas) é uma necessidade do homem em todas as épocas. É como se fosse um germe instalado no nosso espírito pela natureza com o intuito de assegurar nossa sobrevivência. Com o passar das eras, essa necessidade de expansão da consciência inevitavelmente se tornou mais complexa e, consequentemente, complicada. Mas as complicações despertam em nós o espírito da aventura, ao nos lançar perante o desconhecido.

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Se fomos, ou ainda somos, incentivados por uma inteligência orgânica/material mais evoluída que a nossa, disso ainda não temos certeza. Aprender com os mais velhos, forçosa ou voluntariamente, é uma tarefa cotidiana, e não há como, nem porque, fugir dessa sina. Um dos personagens mais fascinantes da obra, o computador Hal, que comanda a aeronave, foi programado para ser perfeito em tese e demonstrou ser a cópia intelectualmente mais fiel ao homem, ou seja, imperfeito em sua natureza. Incompleto. Defeituoso. Parcialmente disfuncional. Não suportou o peso da responsabilidade de carregar a verdade. E falhou. Uma máquina cuja falha de caráter coloca toda a tripulação da espaçonave em risco (alô alô Inteligência Artificial, de Spielberg). E com o passar dos anos, tornou-se um dos vilões mais amados do cinema.

É como se o ego do homem estivesse intrínseco aos seus neurônios, sendo um componente de sua natureza. E por isso Hal se tornou falível, embora não tivesse sido planejado para tal. Pois é, a evolução humana anda e desanda, cai e levanta. Mas dela não há de se fugir.

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2001 é uma jornada do homem em busca de si mesmo fora dos seus domínios. O futuro ainda é um desconhecido, ameaçador e sedutor. Enquanto isso, vivamos o presente, do jeito que sabemos, até que apareça o osso responsável pelo próximo passo no avanço de nossa lenta consciência.

P.S.: 2001 – FILME é desafiador para quem busca uma narrativa de fácil assimilação, sendo muitas vezes recomendado como um filme de valor principalmente artístico, visual, conceitual, filosófico, e não como uma simples peça de entretenimento. Já 2001 – LIVRO, é bastante didático, de fácil leitura, com explicações minuciosas sobre os temas, o que é inclusive uma necessidade de qualquer romance. Um é independente do outro, mas a leitura do livro ajuda a compreender o que está por trás do universo de enigmas geniosamente criados por Kubrick no cinema.


Fausto Muniz

Jornalista, Escritor. Com um pé e meio na fantasia, e dois dedos na realidade..
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