olhar agridoce

Um olhar amargo e doce de tudo o que é, ou abriga V I D A.

K. Fonseca

Afetada por tudo que desperta meu afeto, um clichê inconstante e, por vezes, uma completa contradição.

Eleuterofobia, você tem?

Uma manhã eu acordei e me permiti continuar sonhando. Era um domingo quieto, mas na minha cabeça uma palavra gritava: L I B E R D A D E. E eu podia senti-la em mim, eu já não tinha medo dela.


Tomei café, fiz carinho em minha inquieta e bagunceira amiga de quatro patas, ganhei lambidas na mão e uma mordida de leve nos dedos, infelizmente não conseguia mais leva-la para passear, ela me arrastaria por quilômetros... Então o meu passeio não podia incluí-la. E eu precisava ir só. Coloquei o vestido colorido que mais gosto e meus óculos escuros. Na mochila de bolinhas eu levava uma esfera de paz que ganhei de presente de um amigo, e saí... Não tranquei o portão, não levei chave, não levei guarda-chuva... Num dia como aquele, certamente a chuva não se atreveria a dar as caras. Saí sentindo o vento nos cabelos, como naquelas cenas clichês dos filmes antigos, e ri sozinha porque essa palavra me lembrava alguém. sonhoss.jpg

Pensei em pessoas que são especiais e que deveriam estar fazendo o mesmo que eu fazia, naquele momento, pessoas que mereciam aquilo também. Assaltei algumas lembranças e foi quando recordei meus 11 anos, época em que eu, ainda criança, vivi a mais tórrida tristeza e a mais verdadeira felicidade. Eu descobri o que era dor quando vi um caixão descer à terra, naqueles dias também percebi que as pessoas valiam o que tinham e não o que eram... Mas que nem todos pensavam assim, então, tínhamos uma chance de sobreviver nesta sociedade de valores tão estranhos.

Parei por um instante e senti o cheiro da vida, o cheiro do tudo e do nada. Senti o cheiro do abraço daquele alguém que já se foi, que me ensinou que o sorriso, por mais estranho que fosse, era sempre mais bonito do que qualquer outra coisa. Senti saudades, senti um nó na garganta, senti que os meus olhos estavam úmidos e pensei que fosse o amor que não cabia mais, e queria transbordar... Às vezes a gente ama de formas estranhas, e quem nunca chorou pela falta de algo que era bom, precisa fazer isso antes de morrer. Chorar pode ser libertador!

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Abri os olhos e não reconheci o lugar em que estava, talvez tivesse ido longe demais. Fiquei feliz porque não havia ninguém ali, isso era bom... As pessoas não entendem essa necessidade da solidão, aquele momento era só meu e dar explicações cansa muito.

_ Por que o choro? Porque está rindo sozinha? Por que está me olhando assim?

São perguntas demais, e as respostas não interessam a ninguém. Eu sei do que se trata, mas se fosse lhes dizer me mandariam direto pra camisa de força... Há mentes fechadas que não compreendem aqueles que sentem diferente e, por medo, tentam nos convencer de que precisamos de ajuda. No entanto, a verdade é uma só: A liberdade só não vem pra quem tem medo dela.

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(Imagens: Diogo Costta)


K. Fonseca

Afetada por tudo que desperta meu afeto, um clichê inconstante e, por vezes, uma completa contradição..
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