olhar além

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Val Romanha

Uma imensa vontade de explodir em palavras para expressar meu olhar sobre fatos, emoções e relações cotidianas a fim de transformar o mundo, o meu mundo, o inconsciente e o que transcende minha derme.

A arte por trás das palavras de Gentileza

As cidades se tornaram palco vasto para expressões artísticas que dialogam diretamente com as pessoas comuns. Vozes clamantes por transformar a realidade de violência, brutalidade e indiferença. Sobre as cinzas de um circo, anunciando a cura de todos os males, soa a voz na arte do Profeta Gentileza.


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Multidões que trafegam diariamente entre toneladas de concreto, emaranhados de vias e amontoados de arranha-céus. No mundo são aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas vivendo em mais de 1.700 áreas urbanas. Pela primeira vez na história mais da metade da população mundial vive em zonas urbanas em franca expansão.

Indivíduos que vivem claustrofobicamente acostumados com a frieza de paisagens cinza e com o frenesi assustador das massas, veículos e informações. Características que seguem refletidas na apatia dos encontros e na fugacidade das relações.

Inquietos com esse cenário surgem personagens anônimos com vozes, muitas vezes marginalizadas, clamantes por transformar essa triste realidade usando manifestações transgressoras das suas emoções com autenticas expressões artísticas. Como quem tenta ser ouvido através de inscrições em muros e paredes, gritam numa explosão de ritmos e cores para uma multidão que vaga em silêncio na conurbação de milhões de sons.

Foi na cidade de Niterói e posteriormente na capital fluminense, entre os anos de 1961 e 1996 que um camponês de nome José Daltrino vociferou contra a avidez do que ele denominava o "capeta capital que vende tudo e destrói tudo" proferindo palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Sempre muito notado pela indumentária peculiar, barba branca e estandarte na mão, mas principalmente pela defesa da gentileza como medicamento capaz de neutralizar todos os vícios sociais, José Agradecido ou Profeta Gentileza, como Daltrino ficou conhecido, dizia que era "maluco para amar e louco para salvar" aqueles que o consideravam louco.

A história do Profeta Gentileza começou após a tragédia ocorrida no Gran Circus Norte-Americano, em dezembro de 1961 em Niterói. No circo, que na época era anunciado como o maior da América Latina, morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças e adolescentes, numa cena que até hoje é considerada um dos episódios mais trágicos da história circense. Nesse trágico episódio Daltrino, que desde a adolescência já dizia aos pais que chegaria a hora em que seria chamado a se dedicar somente ao mundo espiritual, abdicou de todos os seus bens materiais e da família, construindo no local do incêndio o que chamavam “Paraíso Gentileza”, um local onde ele consolava as famílias das vítimas com palavras de amor e bondade. Viveu ali por quatro anos se tornando depois um personagem andarilho que propagava, pelas avenidas do Rio de Janeiro, a ideia de que "gentileza gera gentileza" a fim de inspirar as pessoas a viverem o que na sua visão era a cura de todos os males. Na década de 80, estampou sua mensagem pelas pilastras do viaduto da Avenida Brasil, em 56 murais que se tornaram patrimônio cultural do Rio de Janeiro.

Para muitos apenas um mendigo, um andarilho, um louco, um lunático idealista. No entanto o Profeta Gentileza com uma forma completamente sui generis de transmitir sua filosofia construiu nos seus murais uma verdadeira poesia visual com sua caligrafia única repleta de elementos artísticos. Na simplicidade de sua intenção, assim como acontece com a maioria dos autores das mais expressivas artes urbanas, Gentileza aplicou no seu legado o genuíno conceito de arte enquanto manifestação estética de percepções, emoções e ideias através da manipulação de formas e cores com o intuito da apreciação e interesse de alguém. Interesse esse que extrapolou os transeuntes da cidade e serviu de tema para diversas expressões artísticas.

Na música inspirou grandes nomes como o compositor Gonzaguinha, com a canção “Gentileza” que diz “Feito louco / Pelas ruas / Com sua fé / Gentileza / O profeta / E as palavras / Calmamente / Semeando / O amor / À vida / Aos humanos / Bichos / Plantas / Terra / Terra nossa mãe” e Marisa Monte, com canção também batizada com o codinome do profeta, que diz “O mundo é uma escola / A vida é um circo / Amor palavra que liberta / Já dizia o profeta”. Na literatura, inspirou livros como o do professor Leonardo Guelman, com título Brasil: Tempo de Gentileza publicado pela EdUFF e o Livro Urbano do Profeta Gentileza também do professor Guelman em parceria com Dado Amaral e Marianna Kutassy da Editora mundo das Ideias. Em 2001 foi enredo da G.R.E.S. Acadêmicos do Grande Rio com Joãozinho Trinta cantando “GENTILEZA – X – O PROFETA DO FOGO”, samba dos compositores Ciro, Carlos Santos, Cláudio Russo e Zé Luiz.

Num mundo marcado pela violência, brutalidade e indiferença, no meio de uma multidão que caminhava solitária por entre paisagens frias, surgiu sobre as cinzas de um circo, uma voz cheia de cor clamando por cuidados que tornassem os relacionamentos mais humanos, com menos rispidez. “GENTILEZA GERA GENTILEZA AMORRR“. No circo da vida, através de uma arte que dialogava diretamente com as pessoas comuns as palavras de Gentileza ecoaram e ainda ecoam entre nós, que como dito na canção, “merecemos ler as letras e as palavras de Gentileza”.


Val Romanha

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