olhar além

Para informar, reformar e transformar é preciso olhar além.

Val Romanha

Uma imensa vontade de explodir em palavras para expressar meu olhar sobre fatos, emoções e relações cotidianas a fim de transformar o mundo, o meu mundo, o inconsciente e o que transcende minha derme.

Que bom que tá doendo!

Negação, raiva, ansiedade, depressão. Sentir dor é tão ruim que saímos loucos a procura de alívio imediato, muitas vezes inconsequente e impensado. É tão agoniante que não conseguimos analisar as causas reais ou o tratamento certo. Aceitar certamente não é o caminho mais fácil muito menos o mais rápido, mas será que isso é ruim?


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A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como sendo o estado de completo bem-estar físico, mental e social. É a plena satisfação das necessidades do corpo e do espírito. Ou seja, a condição de integralidade do homem em suas faculdades físicas, intelectuais, emocionais, sociais e morais. Consequentemente, é natural pensarmos nesse estado como a ausência completa das dores, quaisquer que sejam suas causas e efeitos?

A dor é uma experiência sensorial, física ou emocional, de aspecto desagradável relacionada a lesões tissulares ou a fatores psicossociais. Ela tem componentes perceptivos de ação reflexiva, orgânica ou comportamental, em busca de proteção contra o seu estímulo causador.

Repelimos tão fortemente a dor que não enxergamos sua importância para a defesa do organismo físico e sua eficácia para alcançarmos essa tão falada plenitude. Através da dor, e da percepção de que algo precisa ser feito para o corpo e espírito voltarem ao seu estado integral, que conquistamos essa sensação de completo bem-estar. As mães sentem dores quando é chegada a hora do parto. O atleta sente dor para não piorar a lesão. A ex-esposa queixa-se: “dói muito terminar um relacionamento de tantos anos”. Através da dor rejeitamos naturalmente o que está sendo prejudicial ao nosso corpo.

Tão importante quanto à dor física é a dor moral. Ela é a manifestação do que precisa ser trabalhado no indivíduo para que ele retorne ao seu estado pleno, e dessa forma ela constitui um elemento fundamental para a ascensão social, para a saúde das relações e para o equilíbrio do universo.

Porém, pelas suas consequências de debilidade física, afastamento social, crises familiares, distúrbios diversos, depressão e em casos mais graves até suicídio, a dor é percebida com extrema rejeição. Isso se comprova pelos galopantes índices de crescimento do setor farmacêutico que demonstram de forma clara a forte expansão do consumo de medicamentos, em especial os de característica analgésica.

Na mitologia, o semideus Quíron, trocou sua imortalidade para que suas dores cessassem. Quíron era um centauro, nascido de uma cópula entre Cronos, metamorfoseado em cavalo, com a ninfa Filira. Como filho de um titã, Quíron era imortal. Abandonado, foi encontrado por Apolo, que foi seu pai adotivo e lhe ensinou todos os seus conhecimentos, tornando-o respeitado professor e tutor. Em uma contenda entre Hércules, um de seus pupilos, e os centauros, uma flecha embebida com o sangue da Hidra de Lerna errou o alvo e atingiu justamente a coxa de Quíron. Desesperado, Hércules foi tentar salvá-lo com um remédio que havia aprendido com o próprio professor, mas a moléstia era incurável. Seu sofrimento iria se estender pela eternidade. Sentindo dores terríveis, Quíron suplica a Zeus que ponha fim à sua existência. Zeus, então, o atende cessando suas dores, porém o colocando no Céu para sempre, na constelação de Sagitário.

Na atualidade milhares de pessoas repetem o gesto de Quíron entorpecendo seus sentidos a fim de cessar suas dores, físicas ou morais. Em busca do caminho, aparentemente mais fácil, preferem fugir do processo reflexivo e depurativo que as dores representam, usando substâncias analgésicas, calmantes, depressoras ou narcóticas. Pessoas que negam, repelem, reprimem as dores ignorando por completo os seus sinais. Em busca de um alívio rápido, elas arriscam sua plenitude quando postergam a conclusão de que é somente aceitando, entendendo e superando o desconforto, muitas vezes momentâneo, que se retorna ao bem-estar completo e duradouro. Que bom que tá doendo!


Val Romanha

Uma imensa vontade de explodir em palavras para expressar meu olhar sobre fatos, emoções e relações cotidianas a fim de transformar o mundo, o meu mundo, o inconsciente e o que transcende minha derme..
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