Fábio Congiu

Jornalista, poeta e escritor. Autor do livro de poemas "Olhar das Coisas". Mais textos em: https://olhardascoisasblog.wordpress.com/

Cem Anos de Solidão, um livro imprescindível

Como os fios e as cores de um tapete persa – daqueles em que os ciganos se exibiam em mirabolantes voos nas feiras de Macondo –, tudo se entrelaça com perfeita harmonia em Cem Anos de Solidão. A obra-prima de Gabriel García Márquez é uma viagem que, se não pode ser lembrada com total clareza devido à confusão de gerações, inunda o imaginário de passagens literárias inesquecíveis e dos mais variados sentimentos. A triste saga dos Buendía não se permite esquecer nas mentes que mergulham na escorregadia realidade de uma terra onde beleza e palavras se fundiram em estilo único e inspirador, capaz de traduzir não apenas a solidão humana, mas também de fazer pensar e conhecer a própria natureza solitária e relativa do mundo


cem-anos-gabriel-garcia-marquez.jpg

Amarrado ao castanheiro, José Arcádio Buendía sonhava que abria a porta de um quarto e entrava em outro idêntico, numa interminável sessão de cômodos iguais, até que, finalmente, Prudencio Aguilar, o homem a quem havia assassinado anos antes, lhe tocava o ombro e o despertava. Isso se repetiu durante muito tempo; certa vez, contudo, Prudencio não mais o soltou. Morria, enfim, o fundador de Macondo. Este é apenas um exemplo da sutileza e da originalidade que permeiam os parágrafos de Cem Anos de Solidão, um dos grandes clássicos da literatura mundial.

Publicada em 1967, esta obra de Gabriel García Márquez (um dos seis escritores latino-americanos a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982) é a melhor demonstração de um talento que se sobressaiu em um mundo pós-revoluções literárias. O livro prima pelo domínio que o autor revela ter sobre a história que se dispôs a contar, pelo refinamento com que funde o absurdo ao natural e, acima de tudo, pela delicadeza com que capta e explora a solidão humana, em sua complexa mistura de angústias e alegrias.

Na época em que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”, a solidão estava lá. Muitos anos depois, quando o aeroplano quase chegou, também. Neste vasto período, são inúmeros os personagens, repetitivos os nomes, infinitas as mortes, frequentes as reviravoltas do destino e complicadas as multiplicações familiares. Se muitos leitores julgam necessário construir a árvore genealógica da estirpe dos Buendía para compreender a história, García Márquez parece brincar com a trama de sua complexa prole.

Brincadeira séria. Mais do que um contador de boas histórias, o escritor é um arquiteto de palavras. A coesão entre o que se conta e como se escreve é tão sutilmente construída que, por exemplo, Santa Sofía de la Piedad, personagem cuja virtude era a de “não existir por completo, a não ser no momento oportuno”, é raramente lembrada pelos leitores do livro. Já as diversas idas e vindas do enredo são responsáveis pela impressão de que o tempo realmente dá voltas, fato denunciado incontáveis vezes por Úrsula, centenária matriarca da família, ao longo dos anos.

Não apenas dá voltas como todo dia pode ser segunda-feira, já que o tempo também “sofria tropeços e acidentes e podia, portanto, se estilhaçar e deixar num quarto uma fração eternizada”. Ao evocar a tranquilidade de sua avó, que lhe contava as histórias mais absurdas sem sequer franzir as sobrancelhas, García Márquez conseguiu fundir com rara maestria as paralelas linhas do sonho e da realidade. O decreto da inexistência dos trabalhadores para calar reivindicações operárias e a difusão da notícia de que nunca houve um líder rebelde como o Coronel Aureliano Buendía, muito menos um massacre em Macondo, são passagens que firmam seu valor por mascarar – sem, entretanto, amenizar – críticas aos regimes ditatoriais da América Latina; outras, como a da chuva de pétalas amarelas após a morte do “rei” e da subida de Remédios, a bela, aos céus, legitimam-se pela beleza profunda, comovente, preciosa.

A saga da estirpe centenária comove justamente pela beleza e pela tristeza de sua solidão. Solidão da loucura do empreendedor José Arcádio Buendía, “cuja imaginação ia sempre mais longe que o engenho da natureza, e até mesmo além do milagre e da magia (...)”; do desencanto de Úrsula em sua vã luta contra a velhice; da glória do Coronel Aureliano Buendía diante do vazio de seus tempos de guerra; do amor do jovem José Arcádio, sozinho na cama com Pilar Ternera; enfim, da própria solidão, cujo peso pode até mesmo desenterrar os mortos. Nada passa despercebido à onisciência do narrador. Cada detalhe explorado se manifesta e/ou se repete ao longo da história.

Como os fios e as cores de um tapete persa – daqueles em que os ciganos se exibiam em mirabolantes voos nas feiras de Macondo –, tudo se entrelaça com perfeita harmonia em Cem Anos de Solidão. A morte a rondar pelos quartos enquanto a vida míngua pelas páginas faz da leitura dessa obra-prima uma viagem que, se não pode ser lembrada com total clareza devido à confusão de gerações, inunda o imaginário de passagens literárias inesquecíveis e dos mais variados sentimentos. Embora não seja dada outra chance sobre a terra à estirpe de solitários, a triste saga dos Buendía não se permite esquecer nas mentes que mergulham na escorregadia realidade do Macondo de García Márquez, uma terra onde beleza e palavras se fundiram em estilo único e inspirador, capaz de traduzir não apenas a solidão humana, mas também de fazer pensar e conhecer a própria natureza solitária e relativa do mundo.


Fábio Congiu

Jornalista, poeta e escritor. Autor do livro de poemas "Olhar das Coisas". Mais textos em: https://olhardascoisasblog.wordpress.com/.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Fábio Congiu