Fábio Congiu

Jornalista, poeta e escritor. Autor do livro de poemas "Olhar das Coisas". Mais textos em: https://olhardascoisasblog.wordpress.com/

Elis Regina e a missão de fazer bem ao mundo

Elis Regina tinha o cuidado de acompanhar seu tempo e a lucidez de reconhecer o falso brilhante da fama. De não perder de vista os valores e anseios da sua geração. Tinha a ousadia de se posicionar como mulher em um mundo de homens. De se equilibrar na corda bamba diante dos desmandos de um regime autoritário. E de manter vivos, em meio a tantos compromissos e desafios, a busca pela leveza e o otimismo de acreditar na melhoria das pessoas e do planeta


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Eu costumo conseguir expressar com a palavra escrita coisas que, mineiro, não digo a qualquer um. Não tenho sempre 100% de aproveitamento, mas, em geral, funciona, seja com saudosismos, desilusões, nostalgias, seja com constatações, críticas e até pequenas esperanças. Por algum motivo, porém, nunca tenho a sensação de “dever cumprido” quando escrevo sobre Elis Regina. Na maioria das vezes, aliás, abandono os textos já nos primeiros parágrafos. Ela, que tanto me inspira, parece não caber nas páginas que ouso começar. Por isso pretendo não pensar muito sobre as próximas linhas. Quero apenas compartilhar impressões.

Compartilhar a impressão de que, para mim, quando Elis canta, a música se completa. Como se ela fosse a nota faltante, o instrumento imprescindível, o segredo da harmonia. Como se, ainda hoje, dissesse as verdades mais necessárias, alertasse para os maiores perigos, celebrasse as mais suadas conquistas. Como se traduzisse as mais íntimas entrelinhas dos versos e também imprimisse aos vocalizes a mais emocionada poesia.

Compartilhar simplesmente que suas ideias, pregadas tanto em discos e shows como em honestas entrevistas, continuam tão jovens quanto sua voz. Que sua inquietude, refletida na constante busca por novas sonoridades a cada álbum, e sua fé no novo, expressa em seu incansável garimpo de jovens compositores, permanecem como referência para a boa música popular brasileira.

Que sua preocupação social, presente tanto nas letras das canções como em seu engajamento nas causas de direitos autorais e até mesmo de direitos gerais dos trabalhadores no final dos anos 70, ainda configuram uma artista de invejável coragem e consciência do seu tempo. Que suas querelas ambientais, evidenciadas em shows como Transversal do Tempo (1978) e Saudades do Brasil (1980), caracterizam uma cantora atenta, atuante e visionária.

Elis tinha o cuidado, que muito admiro, de acompanhar seu tempo – mesmo ou porque à frente dele. E a lucidez de reconhecer o falso brilhante da fama, de não perder de vista os valores e anseios da sua geração. O sonho da liberdade, da democracia, da tolerância, da equidade. De um país com autoestima, orgulhoso de sua cultura, de sua luta.

Tinha a ousadia de se posicionar como mulher em um mundo de homens. De se equilibrar na corda bamba diante dos desmandos de um regime autoritário. E – creio que esta seja sua maior lição para o nosso tempo – de manter vivos, em meio a tantos compromissos e desafios, a busca pela leveza, o sorriso no rosto e, principalmente, o otimismo de acreditar na melhoria das pessoas e do planeta.


Fábio Congiu

Jornalista, poeta e escritor. Autor do livro de poemas "Olhar das Coisas". Mais textos em: https://olhardascoisasblog.wordpress.com/.
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