Ana Luiza Mendes

Historiadora metida a escrevente. escrevente porque não ousa usar o título escritora. Mas, afinal o que é uma escritora? A descobrir...

O desencanto da sereia

Todos já quisemos o final feliz das princesas e dos príncipes. Todos já quisemos perder um sapatinho e que ele fosse entregue pelo amor de nossas vidas. Todos já quisemos abandonar o nosso mundo para desbravar o mundo desconhecido daquele que achamos ser o amor de nossas vidas. Todos queremos um final feliz. Mas será que o final feliz tem que ser somente o que os contos de fadas nos ensinam? E se descobríssemos que os contos de fadas não são tão de fadas assim?


Quando pensamos na pequena sereia nos remetemos à história produzida pela Disney que nos transmite uma sensação boa porque o final da história é feliz. Contudo, ao lermos a história original, escrita por Hans Christian Andersen em 1852, nos deparamos com uma história que nada tem de infantil ou de felicidade. A pequena sereia, assim como suas irmãs, ao completar 15 anos pode visitar a superfície marinha e visualizar o mundo dos homens.

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Este é, justamente, o universo da história no qual a protagonista principal não tem voz. Literalmente. Ao pedir pernas à feiticeira do mar para ir ao encontro do príncipe pelo qual se apaixona, a pequena sereia dá sua voz em troca. Ela encontra o príncipe, vive próxima a ele, dorme no tapete ao lado da sua cama e espera com ele se casar, o que lhe garantiria uma alma imortal. O príncipe casa-se com outra e a pequena sereia prefere morrer a matá-lo. Pelo príncipe ela sente dores que não podem ser comunicadas. Metaforica e literalmente.

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A história nada tem de conto de fadas com final feliz. Ela representa o ideal do mundo muito real no qual ela foi criada. O mundo de Andersen era o de regras comportamentais e sociais bem definidas entre o que era masculino e feminino. E o feminino não tinha voz, assim como a pequena sereia.

O mundo dos homens que criou essa história era um mundo em que às mulheres cabia apenas o ambiente privado, da família, da casa, sem espaço para a sua ação na sociedade. A crítica a tal situação se dá, efetivamente, no final do século XIX, com o movimento sufragista que reivindicava o direito de voto às mulheres. Na Dinamarca, terra da pequena sereia, isso se torna real em 1915. Se Andersen tivesse escrito após essa data, quem sabe ela teria tido voz.

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A da Disney tem, mas também transmite um estereótipo de vida: de que a mulher só terá seu final feliz com um homem ao lado. Mas não demonizemos a Disney completamente, afinal, alcançar um final feliz é o que todos queremos...o problema encontra-se na exposição de um único caminho para o “viveram felizes para sempre”.

Na contramão dessa corrente, a editora argentina Chirimbote lançou uma coleção de livros infantis denominada Antiprincesas, cujo objetivo é contar a história de mulheres latino-americanas que guiaram suas vidas diferentemente do convencional. No Brasil, a série é publicada pela Sur Livros. A série também conta com a coleção Antihérois, que mostra que os estereótipos podem ser quebrados por todos.

Evidentemente que ainda há críticas, como o fato de se ter apagado Diego Rivera da vida de Frida Khalo. Aqui parece que o problema central está em não frisar a relação amorosa dos dois artistas e focar nas ações que Frida desenvolveu autonomamente. Entretanto, o problema não é a relação amorosa em si, como também não é o foco da crítica à história da pequena sereia. A questão é o problema de se defender a relação amorosa, que por vezes não é exatamente amorosa, mas de poder,de submissão,de abuso, como o único objetivo da vida de uma mulher.

Georges Duby, historiador francês, disse que não entendia fazer-se uma história das mulheres separada da dos homens, visto ambos estarem em constante relação. O problema, pois, não é a relação em si. No caso da pequena sereia, o problema centra-se na inaudibilidade dos seus desejos, das suas vontades que, por vezes, é o que corriqueiramente ocorre com as mulheres reais que nem sempre conseguem dar a volta por cima e terem os finais felizes das princesas da Disney.

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Infelizmente, a inaudibilidade feminina não está presente somente na ficção da literatura. Recentemente li um artigo que mencionava uma autora de quem nunca ouvi falar: Isabel da Nóbrega. Ela é portuguesa e a princípio podemos pensar que não há necessidade de saber quem ela é, visto não dominarmos todo o conhecimento nacional quanto mais o internacional. Entretanto, uma figura a ela relacionada é muito conhecida por nós: José Saramago. Os dois foram amantes (no sentido de terem se amado). O relacionamento durou por duas décadas e depois cada um seguiu caminhos distintos. Saramago, na reedição de algumas obras que escreveu enquanto estava com Isabel, retirou as dedicatórias a ela direcionadas. Quem nunca fez isso? E não se trata necessariamente de dor de cotovelo, de desprezo. As nossas dedicatórias diárias mudam constantemente. O problema foi ter-se apagado Isabel da história conhecida da literatura, como se somente a voz literária de Saramago importasse.

Da mesma forma, para dar amplitude à voz da protagonista mulher, apagou-se Diego. Mas sabemos que ele esteve lá. Como tantos outros, como tantas outras, na vida de Frida. Mas não estiveram na vida da pequena sereia que não podia se fazer ouvir. Entretanto, as vozes hoje estão mais altas e insistentes e, assim, apontam para diversas possibilidades de finais felizes, seja para princesas e príncipes, rãs e sapos, Fridas e Diegos, Isabéis e Josés, dentre tantas outras combinações que permeiam as ondas frenéticas da literatura e das relações humanas.

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Ana Luiza Mendes

Historiadora metida a escrevente. escrevente porque não ousa usar o título escritora. Mas, afinal o que é uma escritora? A descobrir....
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