Ana Luiza Mendes

Historiadora metida a escrevente. escrevente porque não ousa usar o título escritora. Mas, afinal o que é uma escritora? A descobrir...

Pagu, a louca engajada

Pagu, cuja força não é bruta, que não é freira, nem puta, ficou por décadas esquecida da história da literatura brasileira. Junto ao esquecimento propagava-se uma imagem de uma mulher louca, imagem comumente relacionada às mulheres que fogem aos padrões de comportamentos impostos pela sociedade machista. A loucura de Pagu relacionava-se à concepção de vida e de escrita engajada, através da qual praticava o desnudamento em prol da transformação do mundo.


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Em 2004 foi transmitida uma minissérie, Um só coração, que apresentava ao público o contexto de vida de São Paulo da década de 20. Entre outros eventos, a minissérie mostrou os acontecimentos relativos ao movimento modernista através de seus principais, ou mais conhecidos personagens: Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagu, entre outros. Confesso que não lembro muito bem do programa, mas lembro de ficar com a imagem de uma Pagu louca. Uma mulher fora dos padrões que roubou o marido de Tarsila e abandonou o filho. Anos mais tarde surge Rita Lee com sua música Pagu, que dizia "não ser freira, nem puta". Numa época de adolescência rebelde, a música tornou-se quase uma ode à vida fora dos padrões. Porém, não ouvi mais falar de Pagu e aquela imagem da louca ainda pairava na minha imaginação.

O que a música revela e, só mais tarde percebi, é uma mulher multifacetada e considerada louca por questionar os padrões de comportamento estabelecidos. Sobre sua imagem, a própria Pagu, em carta escrita em 1940 para seu marido Geraldo Ferraz, apontou para um desconforto, pois esta imagem não condizia com a realidade. Nessa carta, publicada em 2005 com o título Paixão Pagu, ela diz que os jornais noticiavam de forma escandalosa sua participação nos acontecimentos políticos de 1931 que acarretaram na sua prisão, de forma a transformar a realidade em lendas mentirosas que exageravam sua atuação.

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Ainda que se possa pensar num possível sensacionalismo e deturpação da imagem de Pagu pela imprensa da época, não podemos menosprezar seu papel naquele cenário político. Pagu foi a primeira mulher presa política do Brasil, fato ocorrido quando trabalhou como operária em Santos, proletarização exigida pelo Partido Comunista, ao qual tentava se inserir. O partido não estava satisfeito com as origens burguesas de Pagu e ela, ainda que questionasse internamente os seus comandos, os colocava em prática para demonstrar o seu total envolvimento na causa. Assim, deixou Oswald de Andrade, seu primeiro marido, por recomendações do partido. Deixando Oswald, também deixava a maternidade de seu filho. Tudo para benefício de uma causa que considerava maior e justa.

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A relação entre Pagu e o Partido Comunista foi sempre conturbada. Ela tentava se adequar aos seus parâmetros para ser aceita, o que não conseguiu até que posteriormente se desvincula totalmente dele e associa-se ao Partido Socialista, pelo qual tenta se eleger deputada estadual em 1950.

É ainda à sombra da conturbada relação com o Partido Comunista que publica, em 1933, Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo. O livro foi escrito e publicado dentro da ótica e da estética modernista com a qual Pagu se relacionava intimamente. Assim, com essa obra a autora investe contra o establishment acadêmico e político e retoma uma das questões que caracterizam a literatura moderna: a invenção de linguagem , aspecto que, segundo alguns estudiosos, teria herdado de Oswald que também em 1933 lançou Serafim Ponte Grande, cujo modelo de linguagem assemelha-se à obra de Pagu.

Seu primeiro livro teve o intuito de alertar e indignar o leitor. Ele não se enquadra na estética defendida pelo partido que deveria culminar na edificação e idealização da classe operária. Esta aparece no romance e é a personagem principal, sobretudo a mulher operária, o que também é considerado como uma revolução literária a posteriori, pois à sua época o livro não foi compreendido e Pagu foi marginalizada pela crítica e pela historiografia.

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De fato, num primeiro momento, o romance causa desconforto porque não se estrutura nos moldes dos romances que estamos acostumados a ler, isto é, os romances disseminados pelo cânone. O livro é arquitetado como um romance panfletário em que a linguagem real dos proletários do Brás, bairro industrial de São Paulo, é exposta não só para demonstrar a realidade, mas também para compor o ritmo narrativo que caracteriza de forma negativa a modernidade.

Porém, não só a linguagem é colocada à tona. Pode-se dizer que o livro trata da violência. Ele apresenta o cotidiano violento das proletárias, sujeitas ao descaso dos patrões e as investidas sexuais deles e de quaisquer outros, como são os casos de Corina e Matilde. Esta perde o emprego na fábrica porque se recusou a ir ao quarto do chefe. Já o caso de Corina é retratado de forma mais alarmante. Ela envolve-se com Arnaldo e engravida. Pensa que ele irá assumi-la juntamente com a criança. Isto não se realiza e é expulsa de casa pelo padrasto. Sem conseguir se manter, pois a gravidez é um empecilho para que continue na fábrica, acaba em um bordel onde sonha com o berço da criança: “Corina abre a porta, fatigada. Mais outro, e terá o dinheiro para o berço do filhinho”.

Corina foi presa por aborto. O mesmo aborto que a sua chefe pediu para que fizesse para manter o emprego. Ela se recusa a matar o seu filhinho, perde o emprego, se prostituiu para sobreviver e comprar o berço. Pagu parece querer demonstrar um círculo vicioso social. A sociedade que impôs a Corina essa situação é a mesma que a pune por algo que ela não cometeu. É extremamente provável que a doença da qual sofre o filho de Corina tenha sido provocada por uma doença transmitida sexualmente. O pai da criança, Arnaldo, é mencionado em um episódio posterior como tendo se desenroscado da situação ao dizer que o filho não era dele e já adornado nos braços de outra. “ – E a crioula? – Cadeia.” Um dos elementos que trazem originalidade à obra de Pagu é justamente a ênfase nas questões femininas, tendo como um dos eixos ideológicos a condição social da mulher, colocando-se num panorama de crítica mais amplo que o feminismo burguês e anarquista, por ela criticados.

Nos primórdios do século XX existiam, basicamente, duas vertentes feministas no Brasil: a bem e a mal comportada. A vertente bem comportada era liderada pelas mulheres liberais burguesas, dentre as quais encontrava-se Bertha Lutz, líder da Federação brasileira pelo progresso feminino, cujo objetivo era a extensão dos direitos civis e políticos às mulheres. Acreditavam que pela educação e melhores empregos, as mulheres mudariam sua condição social e seriam reconhecidas pelo valor e talento. Ainda assim, Pagu faz uma ferrenha crítica a esse movimento em Parque Industrial.

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Por sua vez, a vertente feminista mal comportada tinha consciência da necessidade de uma transformação social mais profunda não atingida apenas com o voto feminino. Dessa vertente participava o movimento anarquista que, contudo, também era criticado por Pagu.

Diante disso, percebe-se que Pagu tece o livro através de temas que estão intimamente relacionados: a sexualidade, a opressão feminina, o aborto. Situações que Pagu apresenta como corriqueiras para as mulheres pobres. Pagu foi “a militante do ideal” e, por esse motivo, de acreditar fielmente na causa pela qual lutava, surge Parque Industrial, cujo objetivo era de ser um “livro revolucionário”. A revolução não foi reconhecida no período e por muitos anos Pagu, enquanto escritora, foi relegada ao esquecimento, visto o fato da segunda edição de Parque Industrial, ter sido feita somente na década de 1980. O livro causou incômodo justamente por explicitar os problemas sociais então vigentes e também por ter sido escrito numa linguagem bastante incomum, sobretudo para mulheres. O livro também foi rejeitado também por não conter nenhuma heroicização do homem proletário, estética literária defendida pelo Partido Comunista.

A análise da obra de Pagu, além de contribuir para a compreensão de uma perspectiva dos acontecimentos sociais, políticos e culturais do qual foi testemunha, também permite a análise através do viés do sentido da escrita de mulheres. Para Pagu, a escrita estava vinculada à ânsia da vida engajada, como já teorizava Sartre ao defender que a escrita deve ser engajada no sentido de ser uma prática de desnudamento em que não importa somente o que o escritor escreveu, mas como escreveu. Assim, a forma da escrita é tão consciente como a escrita em si, pois expõe o mundo através da criação literária com a intenção de que o leitor colabore em transformar o mundo. De fato, em Parque Industrial é possível perceber o desnudamento de Pagu e seu pacto com a causa para transformar o mundo. "E, por não ser mulher pra se calar, foi esmagada".

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Ana Luiza Mendes

Historiadora metida a escrevente. escrevente porque não ousa usar o título escritora. Mas, afinal o que é uma escritora? A descobrir....
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