olhares

Quando olhares, cuida para que teus olhares levem a novos lugares

Thiago Ribeiro

Thiago Ribeiro adora falar com palavras escritas e às vezes se aventura na prosa poética. Tem 34 anos, formou-se economista, já foi jornalista, apaixonou-se pelo teatro e se esforça na música enquanto dá uma força nas Olimpíadas

Nós, os coadjuvantes do acaso

Quando entendemos que, apesar de todos os esforços, é uma mera questão de sorte se conseguimos ou não alcançar alguma coisa, quando entendemos, portanto, que em tudo o que fazemos e vivenciamos não passamos de areia movediça perante e para nós próprios, o que acontece com todas aquelas nossas bem conhecidas e enaltecidas sensações como orgulho, contrição e vergonha?


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Até que ponto as reflexões deixadas por uma pessoa podem inspirar os passos e pensamentos de outra, décadas depois? Que poder magnífico é esse que a relação com os pais tem para determinar nossos comportamentos através da existência? Como um amigo que permeia quase toda a sua vida ou uma mulher que passa por ela como um furacão podem deixar marcas na mesma medida indeléveis e transformadoras? Qual a real importância que os fatos vividos têm diante daquilo que nossa memória faz deles, ao romanceá-los e guardá-los naquilo que chamamos “alma”? E essa alma, o que seria ela? Existe ou é apenas uma figura criada por nós mesmos como alívio ao fardo de nossa insignificância?

São questões como essas, entremeadas num enredo relativamente simples, que fazem de Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier, um romance que prende o leitor ao longo de suas quase 500 páginas. Raimund Gregorius, um reconhecido professor suíço de línguas clássicas, vivia apenas mais um dia de sua rotina já petrificada pelos anos quando se depara com uma portuguesa misteriosa o suficiente para tirá-lo do eixo. Mais tarde, ainda sob os efeitos da desconhecida, Gregorius termina de ser arrebatado pelo livro de memórias de outro desconhecido, Amadeu Prado, cujas primeiras reflexões fazem o professor deixar toda uma vida pra trás, aventurando-se numa viagem menos geográfica até Lisboa e mais existencial adentro de si mesmo, inebriado por aquele português, médico de profissão, ourives das palavras por vocação, pensador por benção ou maldição – deixo a escolha ao leitor.

O mesmo acaso que fez aquele livro cair nas mãos de Gregorius é o que me faz agora escolher, entre os diversos temas de sua viagem, justamente o acaso como foco. Sim, pois não fossem todos os fatos que por acaso se acumularam até aqui em minha vida, certamente eu não estaria neste exato momento escrevendo sobre o acaso. E sou capaz de afirmar que nem vocês estariam aqui agora gastando parte de vosso tempo na leitura de um artigo sobre o acaso não fosse o acaso de uma série infindável de ocorrências tê-los trazido até aqui.

Quando entendemos que, apesar de todos os esforços, é uma mera questão de sorte se conseguimos ou não alcançar alguma coisa, quando entendemos, portanto, que em tudo o que fazemos e vivenciamos não passamos de areia movediça perante e para nós próprios, o que acontece com todas aquelas nossas bem conhecidas e enaltecidas sensações como orgulho, contrição e vergonha?, pergunta Prado num de seus aforismos, colocando o acaso no posto de líder máximo de nossas trajetórias.

Não sei se sou tão radical quanto o médico-pensador português na leitura do acaso – embora, em última instância, até questões essencialmente individuais, como nível de esforço e capacidade de concentração possam ser vistas como frutos do mais puro acaso –, mas o fato é que a passagem acima nos leva a pelo menos colocar em perspectiva e relativizar a importância dos nossos próprios atos e escolhas para a evolução de nossas vidas. E isso pode ser um grande alívio para corações amargurados, inconformados e entristecidos. Corações melancólicos que colocam em si a culpa por tudo de imperfeito que a eles ocorre, como se pudessem ter dado outro rumo a tudo se tivessem sido mais competentes.

Quantos dias de nossas vidas – meses talvez, até anos para alguns – não passamos pensando no que poderia ter sido se tivéssemos tomado aquela atitude, falado aquela palavra ou calado aquela outra, preferido o silêncio ao som, feito ou deixado de fazer aquele convite, ou aquele outro, dado mais um tempo em vez de buscar a decisão... se tivesse virado jornalista, músico ou ator... se tivesse se casado com a que queria filhos e dedicação em vez de optar pela paixão em forma de ardor e ilusão...

E a resposta para quase todas essas questões, que costumam entrelaçar as mãos da nostalgia e do sofrimento, é absolutamente impossível de ser dada, simplesmente porque naquele exato momento em que aquela atitude foi tomada não havia qualquer outra atitude realmente disponível na prateleira. Dentro de uma redoma de megalomania egocêntrica, tendemos a acreditar que nós, senhores onipotentes de nosso destino – e muitas vezes do destino alheio –, poderíamos perfeita e facilmente ter feito diferente e, naquele instante já passado, como num passe de mágica ter mudado todo o futuro que hoje é o nosso presente. E ainda terminamos por nos achar idiotas por não ter enxergado algo tão óbvio.

O problema é que a gente às vezes acredita que é importante e capaz demais. E nessas horas demonstramos ainda mais cabalmente a nossa capacidade limitada, afinal, em nossa dramatização do passado, não conseguimos perceber a série de condicionantes que nos levava inexoravelmente ao que foi feito, sem alternativa. Não percebemos a importância do acaso como protagonista de um filme em que somos coadjuvantes. Não notamos que ele, o acaso, colocou-nos diante de um quadro que até poderia ser diferente, se as circunstâncias que o cercavam fossem distintas. Mas não eram. E não eram porque o acaso não quis, não porque fizemos ou deixamos de fazer algo. As alternativas que hoje enxergamos como as melhores eram as que enxergávamos como piores antes. Por isso não foram realizadas e não porque somos pós-graduados em imbecilidade aplicada à humanidade.

Não se trata de diminuir o senso de responsabilidade pelos próprios atos. Temos sim de bater no peito e arcar com as consequências de tudo o que escolhemos e fazemos. Trata-se sim de diminuir um pouco o fardo da culpa pelas decisões passadas que não nos levaram ao ponto ansiado. Elas eram nossas melhores opções. Muitas vezes a única diante do contexto vivido. E ainda que houvesse outras, quem disse que o resultado seria diferente, se assim não quisesse o acaso?


Thiago Ribeiro

Thiago Ribeiro adora falar com palavras escritas e às vezes se aventura na prosa poética. Tem 34 anos, formou-se economista, já foi jornalista, apaixonou-se pelo teatro e se esforça na música enquanto dá uma força nas Olimpíadas .
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