olhares atentos

O pior cego é aquele que não quer ver

Felipe Matula

As Fronteiras Entre o Ser e a Arte, em A Caverna, de José Saramago

Saramago foi um dos últimos autores a colocar o dedo na ferida de uma sociedade doente e manipulada. Em “A Caverna”, percebe-se uma crítica que vai além da alegoria do mito da caverna de Platão. A massificação da arte, por exemplo, é um aspecto abordado pelo autor português, que nos alertou a partir do personagem Cipriano Algor, um oleiro, que até mesmo o artesanato está sendo substituído por máquinas. Por que deixamos de valorizar um trabalho singular e consumimos cada vez mais produtos comuns e sem valor humano?


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Quando foi a última vez que você comprou um produto feito a mão? Não me refiro a uma peça de arte cara adquirida em alguma galeria, mas sim um artesanato feito por um artesão de rua.

A arte nos dias atuais vem perdendo cada vez mais espaço e vem cada vez menos sendo valorizada, não somente no artesanato, como também na literatura e no cinema.

Em “A Caverna”, do autor português José Saramago, temos como personagem principal um oleiro chamado Cipriano Algor. Ele é a representação da arte que vem sendo substituída por máquinas no mundo atual.

O enredo do romance é bastante simples: Cipriano Algor é oleiro, pai de Marta Algor que é casada com Marçal Gacho. Os três moram em uma pequena casa no interior, longe do centro comercial. A rotina do oleiro Cipriano é levar de carro Marçal (que trabalha no centro) ao centro comercial, voltar para a sua casa no interior e trabalhar na olaria, junto com a sua filha Marta. Quando Marçal tem folga do trabalho, Cipriano volta ao centro comercial para buscar o genro. A rotina da vida das personagens é modificada, a partir do momento que o centro comercial para de encomendar os objetos de cerâmica produzidos pela família e Marta fica grávida de Marçal. José Saramago mostra principalmente a visão de Cipriano Algor, pai de Marta, a respeito da falta de interesse do centro comercial em seus produtos de cerâmica e a única alternativa para continuar a ter um lar: viver com a filha e com o genro no centro comercial. Uma das soluções encontradas pela família para o sustento é a produção de outro tipo de objetos de cerâmica: bonecos. Talvez, esse seja um dos elementos utilizados por Saramago para destacar um dos aspectos que tornam a arte cada vez mais desvalorizada. A partir da criação de centenas de bonecos, José Saramago nos mostra defeitos, rachaduras e pedaços que faltam em muitos deles, que podem servir como uma metáfora de nós mesmos, já que quando um boneco apresenta algum tipo de defeito, ele é logo substituído por outro em perfeitas condições, assim como nós somos substituídos pelas máquinas. Além disso, acompanhamos a trajetória de um homem que vivia da arte e é forçado a se mudar para um centro comercial. Existe derrota maior do que essa para um artista?

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A arte é arte por ser única, quando feita por uma máquina ela deixa de ser arte. No universo Saramaguiano, as pessoas consomem arte produzida por máquinas. Todavia, se pensarmos bem, nós também não consumimos? Quase tudo o que consumimos e é considerado arte é massificado, desde as músicas que escutamos até mesmo o que iremos assistir na tevê ou no cinema. E nós continuamos a viver as nossas vidas sem nos preocuparmos muito com isso, afinal, em nossas cabeças se lemos algum livro ou assistimos a algum filme no cinema, já nos consideramos mais “culturais”. Mas é preciso ir além, é necessário discutir e questionar o que nos é oferecido como arte nos dias atuais.

Os problemas apontados por Saramago mostram que o ser humano não percebe o real ao seu redor. Como perceber então o que realmente tem valor artístico? Isso ocorre não somente pelas inúmeras imagens que o homem é submetido diariamente nas ruas, na televisão ou na internet, como também pela alienação do ser que o afasta daquilo que é real. No mito da caverna, Platão aponta para a criação de uma alegoria moderna a respeito das indagações do ser humano enquanto elemento transformador da sociedade e dele próprio. A alegoria proposta por Saramago sugere e possibilita diversas formas de se pensar na problemática do simulacro (imagens que inventam a realidade a partir de uma realidade inexistente) na vida e na arte.

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Três obras são importantes para que possamos compreender melhor a massificação da arte: A Obra de Arte na Época da Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamim (1936), e Perda da Aura, de Charles Baudelaire (1868) e A Arte no Século XXI – A Humanização das Tecnologias (2003), de Diana Domingues. Na primeira, Benjamim elaborou uma longa teoria a respeito da mudança de perspectiva sobre a reprodução artística com o advento das máquinas. O segundo é um poema irônico, escrito em prosa por Baudelaire, a respeito da perda da aura criativa do homem na criação artística. Tanto a Arte na Época da Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamim, quanto em Perda da Aura, de Charles Baudelaire, têm um ponto em comum: ambos tratam da perda da “aura criativa” do artista e de como a massificação tem um papel fundamental nisso. Em A Arte no Século XXI – A Humanização das Tecnologias (2003), Diana Domingues traz diversas opiniões sobre a arte no século XXI, e a maneira como as pessoas passaram a utilizar as novas tecnologias para realizá-la. Percebe-se que o problema da interferência das máquinas no meio artístico é antigo. Saramago apenas nos alertou para um antigo problema sob uma nova ótica.

Ao exaltar a arte como criação, o autor português denuncia a marca aurática do artesão/artista, reveladora de gesto mimético singular, apontando o ser humano como principal elemento transformador da sociedade, por meio da criação artística contestadora e crítica.

Mas como diferenciar a arte real da arte simulada? É preciso antes de responder essa pergunta, reconhecer o que nós estamos enxergando exatamente nas sombras da realidade nas paredes de nossa imensa caverna. Precisamos antes de tudo reconhecer o simulacro antes de reconhecer o real.


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