Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

O luto, a velhice, e as pequenas e grandes perdas

Pensávamos amar tanto aquelas pessoas que houve investimento por parte do ego, que direcionou toda libido possível na imagem delas – nos cheiros, nas cores dos cabelos, nas lembranças dos sorrisos, nos toques dos dedos. Cada investimento foi único e constituinte de nosso próprio ser. Mas então, em certo dia, sem que soubéssemos e muito menos pudéssemos prever, essa pessoa desaparece ou morre. A relação do ego com o objeto é mediada pela perda e o direcionamento de toda aquela energia se retira e volta com uma força brutal.


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Há um dia que ninguém quer que chegue, mas que ele chega. Na verdade, ninguém espera que ele venha a chegar realmente, mas ele vem. Aliás, todos sabemos de seu anúncio de chegada e, ainda assim, ninguém quer acreditar nesta possibilidade. Não é cogitado enquanto possibilidade. Perder alguém, nunca é. Mas está aí... Bate a porta e, a contragosto ou não, só nos resta abri-la.

Ao longo da vida colecionamos perdas. Pequenas ou grandes, às vezes apenas incomodam e deixam uma leve dor de cabeça; em outros casos devastam a casa e o nosso coração. A morte do cachorro, a perda da carteira, o esquecimento do dia de aniversário de um amigo querido, a perda do próprio amigo querido. Os avós, os tios, os primos, os pais, os irmãos. Todos, no final das contas, se vão. É também o namoro que acabou, a paquera que não rolou, o sapato que descolou, o pijama furado que a sua mãe jogou fora. Aquele copo de vidro lindo, com animações coloridas de um aquário, que você gostava tanto e que certo dia caiu na pia e quebrou. Pequenas perdas também chegam junto com aquele dia em que a professora querida, da primeira série, a que você achava ser a que mais gostava, mudou de cidade. Ah, nós sofremos tanto! Achamos que aquelas seriam as dores mais doloridas que poderíamos sentir e o mais próximo que poderíamos chegar daquilo que chamam de "tristeza". Há tanta contradição na vivência destas perdas cotidianas, pois são imensas e ao mesmo tempo tão frágeis e pequenas.

Mas, naquela época, nem imaginávamos a coleção de perdas que teríamos que enfrentar dali em diante... Nem de longe poderíamos chegar perto do que seria necessário para vivermos um dia quente em que a mãe liga e ao ouvir seu “alô” já temos a certeza de que era para dizer que sua avó havia partido. Em tempos anteriores, não nos era possível imaginar como seria ouvir, ano a ano, ao longo da graduação, velhos amigos dizendo que colegas do colégio estavam partindo com seus carros amassados, aos pedaços, pelas rodovias de sua região. Passou a doer muito mais, também, quando os telefonemas, as mensagens, traziam a morte prematura de pessoas queridas que tiraram a vida com as próprias mãos. Diante destas notícias nós choramos tantas e tantas vezes, não é? Afinal, havíamos investido tanto amor naquelas relações...

Do ponto de vista da psicanálise, pensávamos amar tanto aquelas pessoas que houve investimento por parte do ego, que direcionou toda libido possível na imagem delas – nos cheiros, nas cores dos cabelos, nas lembranças dos sorrisos, nos toques dos dedos. Cada investimento foi único e constituinte de nosso próprio ser. Mas então, em certo dia, sem que soubéssemos e muito menos pudéssemos prever, essa pessoa desaparece ou morre e então a vida fica marcada pelo luto. A relação do ego com o objeto é mediada pela perda e o direcionamento de toda aquela energia, da libido, se retira e volta para nós com uma força brutal. Então, não nos resta outra coisa, senão investir novamente, em outro lugar, em outra pessoa. Até somos capazes de fazer isto, sabemos que é possível, mas a dor, decorrente da volta da imagem investida, perde todo e qualquer suporte e investir novamente parece algo tão difícil... A imagem da pessoa amada não se sustenta mais na realidade do outro. Isso quer dizer que, quando o perdemos, qualquer que tenha sido este objeto para o qual direcionamos amor, perdemos um pouco de nós mesmos. Era a parte do outro que constituía um aspecto nosso – e que se foi.

Ao longo da vida, tantas e tantas outras vezes precisaremos passar por isso... Lamento dizer mas, ao longo de nossa existência, muitas mais serão as perdas e menos as aquisições. A menopausa vai chegar, a aposentadoria, um dia, também. Virão também as perdas de outros amigos e familiares queridos. Com o tempo, também, as falhas de memória, os pequenos esquecimentos. Um dia, e do fundo de meu coração eu espero que não, talvez o Alzheimer chegue e esfacele o seu eu de forma lenta e progressiva, até que o espelho se quebre. Quem sabe ele traga a noção da brevidade da vida, e então tenhamos que falar sobre morte, sobre a morte do corpo e a morte psíquica, que talvez chegue antes daquela, como proposto por Lacan em sua leitura da Antígona, a mulher que morre simbolicamente ao ser retirada da presença dos que lhe são significativos.

Nosso medo de envelhecer, nada mais é que o medo do sofrimento que imaginamos que anteceda a morte. Ao buscar sentidos para a velhice, inconscientemente percebemos que estamos convictos de nossa imortalidade e, em se tratando da atemporalidade do inconsciente, a morte não possui qualquer representação. Para o inconsciente o velho é sempre o outro. E se viver a velhice só diz respeito ao velho, nos localizamos fora das ameaças do tempo. Logo, somos inalcançáveis pela morte.

A morte se atrela à velhice por conta de um discurso que se propaga no âmbito social, sim, mas também porque se o inconsciente não envelhece nem morre, o ego sim, e o que compõe esse processo se faz marcado pelo sofrimento, tornando a velhice intolerável. Ela guarda em si “a ideia de uma morte de nada. Quando ela surge, porém, torna-se uma morte por velhice”. Segundo Jack Messy* (1993, p. 35), "através do medo de envelhecer não estará, acaso, o medo da morte que assim se exprime, ou falando de outro modo: o temor de perder a vida, como tivemos que perder o seio ou a placenta? Mas essa perda é impossível, impensável em demasia, exceto se anteciparmos o ganho de outra vida, celeste ou reencarnada, através da fé num ideal religioso. Talvez não seja a própria morte que cause medo, mas a ideia que temos dela". E então, quantos não são os nossos enganos? Quantas não são as nossas crenças cegas, que tornam nossa passagem pela vida algo mais tolerável de viver?

*MESSY, Jack. A pessoa idosa não existe. São Paulo: Aleph, 1993.


Talita Baldin

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