Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A casa do Céu: memórias de quem não desistiu

A Casa do Céu é marcada por uma sensibilidade sem igual, que toca o leitor e o transporta para cada uma das casas em quem Amanda sobreviveu durante os 15 meses de cativeiro: a casa de Arbustos, a casa Escura, a casa na Praia, a casa Positiva. No entanto, era na casa do Céu que Amanda existia. Em meio às suas melhores lembranças, encontrava forças para viver. Vivia nela um imenso desejo de liberdade, mesmo diante das horrendas privações diárias. Na casa do Céu, Amanda arquitetava cômodos, desenhava sonhos, e pintava as paredes com poesia.


sunset-540073_1280.jpg

A obra “A Casa no Céu”, veiculado pela editora Novo Conceito conta a história de Amanda Lindhout, uma jovem que, quando criança, sobrevivia a um lar violento, de constantes discussões entre seus pais e depois entre a mãe e o novo namorado, viajando pelas páginas da revista National Geographic. Logo após completar 18 anos, começou a se sustentar sozinha e saiu de casa, ganhando a vida trabalhando como garçonete. Ela trabalhava muito durante alguns poucos meses, juntando um bom dinheiro, e em seguida passava muitos meses gastando tudo lentamente em viagens pelo mundo inteiro. Foi assim que Amanda conheceu mais de 40 países, entre eles vários da América Latina, Laos, Bangladesh, Tailândia e Índia. Encorajada por estas experiências, Amanda quis arriscar mais alto e visitar países considerados perigosos, por estarem em guerra, como o Afeganistão, Síria, Iraque, Sudão e Paquistão. Motivada pela beleza e pela tristeza que via com os próprios olhos nestes lugares castigados pela violência e cheirando a morte e terror, Amanda decide iniciar uma carreira como repórter: compra uma câmera e investe na escrita de artigos e na produção de fotografias para vender para jornais, revistas e televisão.

O terror começa quando viaja para a Somália, em 2008, considerado o país mais perigoso do mundo. Lá, Amanda e seu amigo, e antigo affair, Nigel, são sequestrados e mantidos em cativeiro na tentativa dos sequestradores conseguirem um bom dinheiro com o resgate dos jovens repórteres.

Durante os 460 dias de cativeiro, onde Amanda sofreu todos os tipos de violências possíveis – psicológica, física e sexual –, converteu-se ao islamismo e arriscou-se em uma fuga desesperada. Amanda passou fome e medo, sentiu de perto o desespero de ser mulher e estrangeira em uma cultura que presava o homem da jihad (guerra). Nas mãos de seus sequestradores, Amanda viveu coisas que acredita serem impossíveis de serem suportadas por qualquer pessoa, por mais forte que fosse. Mas, Amanda tinha um segredo, que funcionava como uma carta na manga: construía casas imaginárias, com jardins bonitos e um clima agradável. Assim ela sobrevivia dia após dia naquela trágica situação.

Neste período em que ficou presa, Amanda só pensava no quanto desejava voltar para casa e estar perto de sua família e amigos, ao mesmo tempo em que sabia que eles não tinham condições de pagar o resgate exigido, e que nem o governo o faria.

Toda a obra é marcada por uma sensibilidade sem igual, que toca o leitor e o transporta para cada uma das casas em quem Amanda sobreviveu durante os 15 meses de cativeiro: a casa de Arbustos, a casa Escura, a casa na Praia, a casa Positiva. No entanto, era na casa do Céu que Amanda existia. Em meio às suas melhores lembranças, Amanda encontrava forças para viver. Vivia nela um imenso desejo de liberdade, mesmo diante das horrendas privações diárias. Na casa do Céu, Amanda arquitetava cômodos, desenhava sonhos, e pintava as paredes com poesia. Quando era abusada sexualmente pelos meninos (os guardas captores) Amanda fugia para a casa do Céu, até não sentir mais a dor e a humilhação pelo qual seu corpo passava. E, em meio a tudo, ainda se esforçava para entender que o sofrimento que sentia era fruto da cultura em que ela estava imersa e que aqueles meninos também eram vítimas, tanto quanto ela, da violência da jihad somaliana.

Amanda promovia uma fuga da realidade, vivia no seu mundo de fantasia, onde tudo era possível. Mesmo no momento mais crítico do período de cativeiro, quando ela sofreu torturas, relata que havia uma voz com a qual ela constantemente discutia, que dizia que estava tudo bem, que ela logo estaria livre, que seu corpo estava doente e machucado, mas que ela não era seu corpo e estava bem. Amanda tentava negar, dizer que não, mas se apegou a tudo que tinha. Em determinado momento relata: “A morte começou a parecer algo bastante atraente. Fosse lá o que fosse a morte, tinha que ser melhor do que a situação em que eu estava. Não tinha certeza de como morreria (...), mas conseguia sentir a morte por perto, esperando por mim. A morte não exigiria nenhum esforço. Apenas que eu desistisse de viver” (p. 351).

Neste ponto está a grande questão: apesar de tudo, ela não desiste. Claramente o que mantém Amanda viva é a emergência do sujeito do desejo: ela desejava mais do que qualquer coisa se manter viva, tanto que mesmo quando teve a oportunidade de se matar com o aparelho de barbear não o faz, opta pelo sofrimento, não por acreditar realmente que seria liberta, mas por desejar ardentemente por aquilo. São as memórias, inconscientes e pré-conscientes, que sustentam a posição do sujeito. Ela opta pela vida e mantem firme sua postura, até o fim.

Certamente, vale a pena a leitura!

LINDHOUT, Amanda; CORBETT, S. A casa do céu. Ribeirão Preto, São Paulo: Novo Conceito Editora, 2013.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Talita Baldin