Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Casa vazia

Sempre aquela vontade de perguntar pela pessoa que se foi, "mas quando é que ele vai voltar?".


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Quem nunca chegou em casa depois de um tempo e encarou a casa vazia?

Quem nunca voltou no meio da madrugada e sentiu falta daquela luz no fim do corredor dizendo que se é bem vindo e que sempre se há tempo para voltar?

Quem nunca reencontrou aquela pessoa querida, cuja outra pessoa querida não habita mais aquele lugar, e ficou com vontade de perguntar “mas e o fulano, como está?”? Não está. O fulano não mora mais ali. Partiu. Partiu e não vai voltar. Não vai mais deixar a luz acesa no final do corredor, nem seu riso solto pelas paredes. Ele não vai mais preencher a casa com aquele silêncio tranquilo e a respiração tensa depois das caminhadas matinais, não vai mais encher o ar com o cheiro do seu suor salgado, com a sua doçura nos olhos calmos, com as mãos pálidas flácidas. Não vai mais preencher o meu coração com a sua presença turbulenta do sopro do seu coração.

O fulano se foi. Deixou a casa vazia e também o coração. Deixou a saudade em troca das refeições compartilhadas e apenas certezas de uma lealdade sem fim, tudo o que pode deixar depois de tantos anos em que achei que as paredes da casa combinavam com seu cabelo grisalho, que o piso da área refletia aqueles olhos castanhos cheios de brilho, que o tapete da sala imitava com facilidade o aconchego que era se aquecer em seus braços quando o frio batia forte na janela da sacada e não havia mais ninguém na rua. Pensei nunca esquecer que, assim como, eu não comia queijo nem bebia leite, mas não dispensava um churrasco caprichado. Nem naqueles últimos meses em que pouco comia, fazia, dizia; deixou de fazer observações sobre como estava feliz com minhas conquistas.

O que é isso que vem junto com essa saudade sem explicação e essa vontade de perguntar sobre ele, sobre como, onde, está? Que vontade é essa de perguntar sobre quando vai voltar. Como se não tivesse existido o ontem, como se nunca houvesse havido aquela madrugada cinza, aqueles choros incontidos, aqueles gritos de desespero, as noites sem dormir à espera de que algo, alguém, o tirasse da CTI. Com vida. Com aquele mesmo riso fácil, com a mesma docilidade com que dizia algo que deveria soar firme.

Mas se foi. Um dia as noites sem dormir acabam, assim como acabaram naquele dia em que ele se foi. Mas, por favor, POR FAVOR, eu quero! Me deixa perguntar para essa casa vazia: “quando é que ele vai voltar?”.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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