Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Da dor e do Amor, a arte de cuidar

As pessoas sofrem. Todos, sem exceções, sofremos. Por motivos distintos, mas sofremos. Não se pode viver sem sofrimento, mas a vida também se torna impossível sem alívio. Que a certeza de nossa ciência, não nos torne duros diante das incertezas humanas e inerentes a nossa humanidade. Que amar seja sempre o princípio fundamental da existência e COM UNICAr e ser ouvido em sua experiência singular também.


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Esta semana, participando de um congresso de Geriatria no Rio de Janeiro, tive o imenso prazer de ouvir Dom Antônio Dias Duarte falar sobre a dor total e como encontrar alívio para ela, sob o ponto de vista da antropologia existencial. Durante sua fala, inúmeras foram as questões que me tomaram e surgiram. Meu ponto disparador, certamente é aquele utilizado também por ele: “O que frustra a vida não é a dor, mas a falta de Amor”. Doce, forte e tocante. A partir desta pontuação, abro-me à possibilidade de escrever sobre a solidão na velhice.

Não raro as pessoas velhas estão sós. Sejam aquelas que se encontram em suas casas, sejam aquelas que habitam os asilos, abrigos, que se encontram hospitalizadas, e, portanto, em alguma situação de institucionalização. A velhice é marcada por uma série de perdas, de todas as ordens: cognitivas, motoras, psicossociais, biológicas. É a perda do corpo jovem, a imagem que muda no espelho, os amigos que morrem, o cônjuge que parte, a família envolvida com suas outras famílias. Quando este processo acontece paralelo a alguma forma de institucionalização, a tendência é de que essas perdas sejam ainda mais sentidas, uma vez que há um rompimento abrupto também com a rotina e o jeito próprio de levar a vida fora da instituição. Todas estas situações geram desconforto, dor e, muitas vezes, muito sofrimento. Envelhecer sozinho, sentindo todas essas perdas sem qualquer sensação de alívio e conforto, é envelhecer sem Amor em um momento que a vida clama pelo cuidado, para além do corpo.

Mas então, como oferecer conforto a este sujeito que sofre? Como oferecer Amor?

Os profissionais da saúde, muitas vezes acomodam-se em suas rotinas profissionais e deixam de lado algo que é do feeling, do sentimento, da intuição. A escuta profissional, independentemente do olhar, precisa ser este alento para o sujeito envelhecido: comunicar precisa ser uma experiência única. E em que comunicar pode ser uma experiência única? A comunicação se faz única quando supre a necessidade daquele que comunica. A quem escuta, cabe oferecer algo em troca: aquilo que de mais sincero o profissional possa oferecer de si – a sua humanidade e com ela a esperança. Tantas e tantas vezes, e minha experiência clínica tem me mostrado isto, o Amor devolve a esperança, a mão se faz muito mais efetiva que uma injeção, um comprimido, um sedativo. Não possível negar a dor enquanto estímulo, e sim, esta também deve ser medicada, cuidada, mas jamais esquecida em sua relação com a experiência subjetiva da dor, ou seja, aquilo que acarreta de sofrimento para o sujeito. Se o que ele sente não pode ser ouvido, então a vida não pode mais ser significada – é como se seu sentido se perdesse. Viktor Frankl belissimamente comunicou sua experiência com a vida a partir do significado daqueles que lhe eram importantes. Prova maior são as instituições coletivas para idosos. A vida é coletivizada, há pessoas, dezenas, às vezes centenas delas, entrando e saindo a todo momento, mas a vida é vivida sozinho, uma vez que há uma perda maior: o sentido de quem é importante e de que se é importante. Constatado isto, infelizmente, nada se pode esperar além do apagamento da chama da existência – e isto, em todas as idades.

As pessoas sofrem. Todos, sem exceções, sofremos. Por motivos distintos, mas sofremos. Não se pode viver sem sofrimento, mas a vida também se torna impossível sem alívio. Que a certeza de nossa ciência, não nos torne duros diante das incertezas humanas e inerentes a nossa humanidade. Que amar seja sempre o princípio fundamental da existência e COM UNICAr e ser ouvido em sua experiência singular também.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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