Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Da satisfação humana e o propósito da existência

A existência, nada mais é que a soma de nossas experiências, dos enlaces que formamos, dos laços que quebramos. É a soma de nossas atividades, de nossa relação com o Outro e com os outros de nossa cultura. Viver, para além de existir, consiste em tornar concreto aquilo que a existência é apenas capaz de nos permitir no plano do virtual, em busca da atribuição concreta de sentido para aquilo que os olhos de cada sujeito, em toda sua particularidade, veem.


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Se hoje tivesse sido o último dia da sua vida, você estaria satisfeita com o que viveu?

Essa pergunta me inquietou no dia de hoje. Bastou um quase acidente, um quase a vida por um triz, para a emergência de uma questão que é fundamental e que deveria ser questionada a todo momento. O quanto, de fato, há de vida em nossos dias, aliás, o que há de vida no dia a dia de cada ser?

A existência não pode ser resumida em uma soma de horas que se prolongam pelos dias, meses e anos. Tampouco pode ser descrita por um amontoado de palavras e descrições, prescrições ou orientações – não é possível viver a vida pelos livros, ou pela ciência. Ela pode ser pensada, refletida, questionada, sim. Mas jamais será posta na efetividade do mundo real sem a vivência e a experiência. É por isso que a história de cada sujeito se constrói no dia a dia, em suas relações, em seu contato com o Outro e na medida em que forma novos e rompe com velhos laços sociais e afetivos.

O contato do homem com as diversas instituições de que participa ao longo de sua vida, leia-se a família, a escola, a igreja, a cultura de forma mais ampla, e tantos contextos macro e microssociais, permite que o homem se construa a partir do menino que foi outrora. Aquele menino que interage, desde pequeno, com os seus pares, que se submete ao legado de seus antecedentes e cria o que lhe é possível, à medida que a vida exige mais sua participação na construção de sua realidade e do mundo que o cerca, na tentativa a que inconscientemente todos nos submetemos, de completar aquilo que nos falta, em completar o furo.

Na relação com o imaginário, o sujeito é capaz de imaginar formas de existência, mas é apenas quando lhe é possível trazer a existência para o campo do simbólico que ele vive de fato.

Desta forma, a existência, nada mais é que a soma de nossas experiências, dos enlaces que formamos, dos laços que quebramos. É a soma de nossas atividades, de nossa relação com o Outro e com os outros de nossa cultura. Viver, para além de existir, consiste em tornar concreto aquilo que a existência é apenas capaz de nos permitir no plano do virtual, em busca da atribuição concreta de sentido para aquilo que os olhos de cada sujeito, em toda sua particularidade, veem.

Portanto, ao pegar-me pensando que se hoje fosse o último dia de minha vida, certamente eu não me diria preparada para partir; mas, ao mesmo tempo, teria a clareza de que cada riso, cada lágrima, cada pontinha de dor e sofrimento, cada palavra amiga, cada ombro oferecido, enfim, cada gesto assimilável do ponto de vista do simbólico lacaniano, na minha realidade, foi mais que um ato. Cada encontro que me foi e é permitido nesta vida é parte de um eu que se constrói e atualiza cotidianamente na vida coletiva. Se me é ofertado como um laço, atribui-me sentido suficiente para acreditar na vida humana.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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