Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Inferno diet

Tudo isso tem muito pouco a ver com IMC, taxas de colesterol e saúde. Tudo isso tem muito a ver com uma insatisfação gigantesca, muitas vezes proporcional ao excesso de peso (se é que ele existe mesmo), dentro do coração. E nessa lógica, hoje, sou uma pessoa menor, mas com os mesmos problemas – ou, diria mais, com problemas ainda maiores, porque a bulimia passou a me acompanhar a cada ida a um jantar ou uma festa, ou de parceria com a irmã anorexia, a cada pedaço de bolo recheado de cenoura, diante dos quais as duas gritam na minha orelha: “você não pode fazer isto”. No final das contas, sou uma pessoa muito menor e mais cheia de problemas.


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Entre as polêmicas puglieses e mansurs, o foco na dieta. Não é mais valorizado o copo magro, puramente. Agora, o corpo dito ideal é o fitness, uma mistura de magreza extrema com músculos desenvolvidos. É a era dos abdomens definidos, das pernas durinhas, dos bumbuns firminhos. E tudo isso por quê? Porque que perder peso autoriza um biquini menor, uma tarde na piscina, uma saia curta, um vestido justo, um brigadeiro no final de semana e etc, etc,. Ok, isso, todo mundo (acha! que) sabe! Quando na verdade, sabe o que é preciso para usar um biquíni? Para passar uma tarde na piscina? Para usar saia curta? Ter um corpo. Apenas isto. Ficou chocado, não é leitor? Pois é... Esta é a revelação bombástica de 2015! Praia, piscina, roupa curta, comida... nada têm a ver com magreza ou gordura!

Então, vamos falar sobre outras coisas obscuras sobre fazer dieta, aquelas que ninguém conta por aí? Aquilo que fica escondidinho e depois aparece de surpresa para os infelizes desavisados, que juntamente com a dieta, entram em um círculo perigoso e nem um pouco saudável: o “inferno diet”!

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Primeiro ponto, com certeza: roupas! Ninguém me falou que emagrecendo 15 quilos, obviamente, por consequência minhas calças não me serviriam mais e ficariam largas demais em meu corpo e que nenhum tipo de prega ou concerto resolveria. Pior, ninguém disse que renovar um guarda roupa inteirinho custa muito caro para quem não tem hábito de fazer isto. Então, um dia desses, peguei minhas cinco calças jeans mais bonitas, novas e de marcas caras, e as ofereci em um brechó, para ver se eu conseguia alguma coisa com elas e o quão espantada não fiquei ao perceber que minhas cinco calças jeans (caras!) não seriam compradas pelo valor suficiente para eu comprar nem uma calça nova da mesma marca – mesmo que quatro tamanhos menor.

Tudo bem, comecei pelo mais fútil, dirão os leitores, mas as roupas a serem usadas também são importantes, afinal não dá pra ficar pedindo roupa emprestada para as amigas o tempo todo, não é?

No entanto, tem outra coisa que incomoda muito mais do que as calças jeans grandes demais que nem pregas resolvem... Todos aqueles que me incentivavam na dieta, mesmo que não de forma direta, não falaram nada sobre a baixíssima tolerância ao frio que eu teria. Muito frio, o tempo todo. As mãos roxas, as veias sumindo, o queixo batendo, os braços e as pernas arrepiadas. Ninguém falou sobre os blusões no verão e que duas cuias de tererê gelado me exigiriam colocar um par de meias. Ninguém falou! Porque, disso, ninguém fala.

Ninguém falou também que pessoas que fazem dieta não querem ser MAGRAS, mas EMAGRECER. Mais e mais e mais. E aí, claro que você começa a se olhar nos espelhos e parece que seu braço está imenso, as coxas gigantescas, a cintura quilométrica. Mas na verdade é só pele flácida, afinal foram gorduras e músculos que o organismo sumiu em alguns meses. Mas o espaço pertencente a eles ficou. Embora agora, tudo flácido.

E o que é que isso quer dizer? Que tudo isso tem muito pouco a ver com IMC, taxas de colesterol e saúde. Que tudo isso tem muito a ver com uma insatisfação gigantesca, muitas vezes proporcional ao excesso de peso (se é que ele existe mesmo), dentro do coração. E nessa lógica, hoje, sou uma pessoa menor, mas com os mesmos problemas – ou, diria mais, com problemas ainda maiores, porque a bulimia passou a me acompanhar a cada ida a um jantar ou uma festa, ou de parceria com a irmã anorexia, a cada pedaço de bolo recheado de cenoura, diante dos quais as duas gritam na minha orelha: “você não pode fazer isto”. No final das contas, sou uma pessoa muito menor e mais cheia de problemas.

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Então, talvez seja a hora de perguntar às pessoas que nos incentivam nas dietas dizendo “nossa, como você está linda” e equiparando linda a magra, ou “não vá engordar tudo de novo”, e etc. etc., se elas podem falar também sobre as outras coisas pelas quais passam as pessoas que fazem dieta. E também nos permitir avaliar, em nome da felicidade, se precisamos mesmo de uma dieta e sob quais condições.

Para que seu mundo não vire um “inferno diet”, pergunte-se sobre o que há por trás da sua dieta.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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