Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Movimento, respiração e o corpo do ator

Todo o trabalho do ator é o alcance de situações limite e da busca por um retorno. Trata-se do despojamento do corpo do ator para abrir espaço para a construção do corpo do personagem. Assim se constroem os espetáculos, um show de símbolos e signos, um banho de linguagem. Os vários eus que habitam o corpo do ator, despejando-o de seu próprio corpo para abrir espaço para estes outros.


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Um exercício bastante comum em oficinas de interpretação ou mesmo de montagem teatral são aqueles que se relacionam à exaustão física. Diversas podem ser atividades que preenchem aulas inteiras, de vários minutos até várias horas.

Ao longo de minha experiência como atriz em grupos de teatro e também como aluna de oficinas de interpretação teatral, deparei-me diversas vezes com essas atividades cujo efeito são poças de suor no chão, roupas sujas e corpo muito dolorido. Em algumas das atividades, mudamos não apenas nossa forma de andar e se movimentar, explorando os planos baixo, médio e alto e pontos esquecidos de nosso corpo (o dedinho também possui articulação!), mas também a respiração, como no dia em que devia explorar apenas o plano baixo e fazer a respiração via boca-boca (inspiração e expiração apenas bocal). A sensação é de limite. É uma situação limite para o corpo que perde o equilíbrio, que se abstém da sua zona de conforto, da respiração nariz-boca, postura ereta, plano alto. Quando participo dessas atividades, posso sentir em meus dedos o chão duro de concreto, minhas costelas pressionadas entre ele e o peso do meu corpo, meus braços flácidos depois de um bocado de esforço, o cérebro que não responde mais, a sensação de que a qualquer instante se pode desmaiar e os pulmões arrebentarem de tanto forçar para respirar. O corpo diz que não se pode, mas eu insisto dizendo que quero mais. Quero mais daquela dor que me impulsiona para a vida, a resistência do corpo diante da situação limite. Ele é a prova vida, nua e crua de que o corpo sente, é afetado pelo mundo exterior e então não se blinda a ponto de não sentir mais a invasão – da dor, da sensação, do toque; a intimidade no contato com outros. E, embora, o desespero diante da incerteza de se ainda se é capaz de continuar, o prazer em sentir o suor correndo, o coração batendo, as veias pulsando. O prazer em ouvir a música relaxante e a respiração do outro que divide o espaço da atividade comigo, naquele território que, naquele momento, é nosso. E é somente depois de todo este trabalho é que o ator vai para o palco, colocar em ação os efeitos de suas experimentações - por meio do corpo, das expressões faciais, de sua libido, a energia interna que exploda antes de chegar ao espectador. Na interpretação do ator, tudo fala: as mãos, os pés, os olhos, os lábios, o abdômen. O bom ator fala de costas, sem dizer uma palavra sequer.

Irônico é o fato de que muitos ainda pensam que o trabalho do ator seja decorar textos e cuspi-los em palco. Esta é a parte que, em geral, menos os atores gozam, uma vez que a maior parte de seu potencial criativo só entra em ação durante o processo de criação. Também não é raro ouvir atores dizerem que o que mais apreciam de sua profissão é o processo, dificilmente o produto final, para eles sempre incompleto e inacabado.

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Todo o trabalho do ator é o alcance de situações limite e da busca por um retorno. Trata-se do despojamento do corpo do ator para abrir espaço para a construção do corpo do personagem. Assim se constroem os espetáculos, um show de símbolos e signos, um banho de linguagem. Os vários eus que habitam o corpo do ator, despejando-o de seu próprio corpo para abrir espaço para estes outros. O mais marcante de uma experiência como esta, no entanto, é que esse eu próprio – que em realidade sempre foi e é habitado por outros – não se perde, não se anula, e retorna com o encerramento do exercício e/ou do espetáculo. É um jogo temporário, uma morada transitória; cujos efeitos se prolongam pelo resto da semana: a dor, um hematoma ou outro, e as lembranças, fortes, vivas; que permitem que o ator, ao chegar perto de seu limite físico, encontre-se também com fragmentos de sua alma, com resquícios de sua psique imersa e composta, banhada, por pulsão de vida.


Talita Baldin

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