Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

No país da ostentação, quem é este que me pede comida?

Viver uma vida toda em cidade pequena talvez tenha me protegido de várias coisas. Inclusive de viver, ter que ver e encarar as desigualdades sociais a que nosso país sucumbe dia a dia. Não que eu não soubesse que existiam. Eu sabia, porque os jornais me contavam todos os dias, mas parecia uma realidade longínqua, casos esporádicos, exceções sociais.


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Sociedade, estou triste.

Ontem, indo para o trabalho algo me para. É um senhor, meio velhinho, desses na casa dos 70 e poucos. Ele me chama duas vezes e eu tento ignorar. É claro que eu já sabia de que se tratava: ele queria dinheiro, comida ou um trabalho. É claro que eu não estava errada, então eu queria ignorar. Sabia que me doeria menos se eu simplesmente não parasse para ouvir o que aquela pessoa queria me dizer. Mas eu parei. Eu não consegui ignorar, minha formação pessoal, meus valores, meus princípios, e meu “ser” não me deixou ignorar, passar e deixar passar. Ele me disse “moça, moça. Eu tô aqui no terminal desde cedo, eu tô com fome, tô procurando trabalho...”. Não deixei-o terminar. “Desculpe-me, senhor, eu não posso te ajudar”.

Minha sorte é que eu estava com óculos de sol e ele não viu meus olhos e as lágrimas que insistiam em se manifestar diante de meu silêncio. Eu virei as costas, não o deixei terminar. Eu o ignorei. Eu dei as costas para uma pessoa que me pedia ajuda, porque eu tinha em minhas mãos uma arma mais poderosa que uma faca: o não envolvimento. A ignorância. Uma desculpa.

Meu coração doeu, mas eu lhe dei as costas, e outra lágrima se fez. Eu não ia conseguir comer mais nada o dia todo, depois de deixar uma pessoa ali com fome. Ele já tinha abordado várias outras pessoas, como fez comigo; e assim como eu também fiz, elas lhe deram as costas e foram para seus trabalhos, continuaram suas vidas.

Só que eu sou mais fraca. Eu não consigo. Eu não posso engolir o choro por muito tempo. Não sou capaz de seguir. Ele, de algum jeito me tocou. Parei no primeiro quiosque de lanches e comprei um salgado, mas demorei e quando voltei não o encontrei. Eu fiquei ali perdida, como barata tonta que não sabe para que lado ir. Quis voltar para a direção em que ia, mas eu não podia. Aquele salgado na mão me lembrava que eu não tinha como fugir. Então fui procura-lo. Dei várias voltas, pedi informação. E o encontrei, quando ele era ignorado por tantas outras pessoas que, como eu, não podiam fazer nada. Entreguei-lhe o salgado, mas não pude esperar resposta, caso ele tivesse uma. Eu lhe dei as costas, mais uma vez, mas era para que não vesse que eu chorava e que eu não era capaz de lidar com a minha incapacidade de fazer qualquer coisa.

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Penso que viver uma vida toda em cidade pequena tenha me protegido de várias coisas. Inclusive de viver, ter que ver e encarar as desigualdades sociais a que nosso país sucumbe dia a dia. Não que eu não soubesse que existiam. Eu sabia, porque os jornais me contavam todos os dias, mas parecia uma realidade longínqua, casos esporádicos, exceções sociais. Pensava que falavam apenas daqueles que “não deram certo”, dos que preferiam viver na rua, no tráfico, na selva de pedra da cidade grande. Nunca me imaginei negando comida a alguém. Nunca pensei que eu precisaria pedir para sair mais cedo de um compromisso por não conseguir parar de pensar na minha incompetência, na minha impotência, na minha culpa ao me deixar dizer que “eu não posso ajudar”.

Eu, filha do país do futebol, filha da exuberância da Copa do Mundo, das Olimpíadas que logo vão chegar. Em um país onde quem é rico está cada vez mais rico e quem é pobre, quem “não tem jeito”, vai acabar chegando ao final da vida, como esse senhor que me pede comida, e vai esperar que alguém olhe e diga que pode fazer alguma coisa. Aquilo que eu, como indivíduo, não posso. Enquanto sociedade civil, também me abstenho de uma resposta, de uma cobrança. Deixo-me levar pela identidade nacional do "é assim mesmo", do "não tem jeito", que sustenta discursos prontos e práticas instituídas, discursos que nos fazem reféns. Afinal, quem é mais invisível, eu ou aquele senhor? Aquele senhor que me esforço para não ver, ou eu, que sou filha de pátria sem mãe, nem pai, nem avô. Fico até na dúvida se a opressão que desce rasgando na minha garganta e que direciono para este outro que é "menor" do que eu, na verdade não é apenas reflexo da submissão a que eu me subjugo quando me dizem que "contra fatos não há argumentos". De fato, não dá para argumentar depois que você já foi uma vida toda pisoteado por um sistema capitalista-pseudo-paternal. Quantas não são as nossas desigualdades cotidianas?

Sociedade, eu estou triste. Estou triste porque você não é como eu gostaria, porque amanhã e depois e depois, vai sempre haver aquele senhor ali pedindo comida. No caminho do meu trabalho, na porta da minha casa, na extensão da minha vida. Olha, Chico, você está certo. Viver essa vida injusta não é fácil não. Olha, talvez, “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Muita careta pra engolir a transação. Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho”, que não tá mole, não...


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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