Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

(nos) Fomos tão jovens, aos 20 e poucos...

Temos “jogado a criança com a água do banho”, na nossa pressa de se desfazer das coisas, de tomar partido, de se posicionar. E, bem no final das contas, não nos responsabilizamos por nada.


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Nesses tempos de imediatismo em que vivemos, nem sempre é fácil se reconhecer na ideia de que “somos tão jovens”, mesmo aos 20 e poucos. O mundo nos cobra a tomada de decisões, cobra opiniões sólidas, cobra definições definitivas, pois há pouco tempo para se experimentar qualquer coisa a longo prazo. A regra de ouro, ao contrário, tem sido não esperar. Experimentar, experimentar e experimentar, sem viver o que aquilo queira dizer. Até mesmo nossos lutos tem sido vividos em períodos de tempo surpreendentemente curtos, não nos é mais possível sofrer por uma perda, porque não temos tempo para isso. O que é isso de importante que se perde pelo caminho?

As coisas não são mais consertáveis, elas são usadas e jogadas fora com a mesma velocidade com que foram produzidas. Os relacionamentos se esvaem com a pressa de nossos passos no dia a dia no metrô. Os sentimentos também se vão com uma velocidade impressionante. Rir e chorar nunca foram tão pouco discrepantes.

Temos “jogado a criança com a água do banho”, na nossa pressa de se desfazer das coisas, de tomar partido, de se posicionar. E, bem no final das contas, não nos responsabilizamos por nada. As escolhas são difíceis, são dolorosas, porque a-decidir também nos cobra: nos cobra o caro preço de precisar aceitar as consequências que vieram com aquilo que não escolhemos, como se fossem nossas escolhas.

E aí não é à toa que chegar aos 20 e poucos sem saber o que fazer da vida seja um processo tão doloroso. O que nos fica é a impressão de que o tempo está correndo enquanto permanecemos ilhados em nossos pensamentos, em nossa vontade de fazer, sem sair do lugar para fazer algo. Estamos aprisionados pela necessidade de suprir nossos desejos imediatistas, pela necessidade efêmera de organizar o caos existencial que cada um de nós possui dentro de si e do qual se parece não haver volta, mesmo aos 20 e poucos. É por isso também que os relacionamentos atuais não duram: somos da geração do “quebrou, joga fora” e não da geração do “conserta”. Afinal, o tempo parece tão curto, não é mesmo?

É preciso muita coragem para perder tempo pregando botões nas pregas laceadas e fazendo barras em calças esfarrapadas. Melhor mesmo é esquecer tudo isso, meter em uma sacola e levar lá para fora. Fingir que foi só uma roupa bonita que ficou velha e foi mandada embora. Acaba ali.

"Você não sente nem vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/ Que uma nova mudança em breve vai acontecer/ E o que há algum tempo era jovem novo/ Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer" (Velha roupa colorida - Belchior)

Será?


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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