Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

O Fausto de Goethe, modernidade e desenvolvimento

O mito de Fausto serve-nos como uma espécie de prisma, principalmente nos países mais avançados industrialmente, para uma série de visões acerca do nosso tempo e da nossa vida, mesmo que não sejamos capazes de apreende-las – ainda.


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Fausto é uma obra escrita em formato de peça teatral pelo alemão Goethe, em sua versão definitiva, no ano de 1808. Escrita em duas partes, a primeira abarca múltiplos cenários, cujas cenas representam uma aposta de Mefistófeles com Deus, quando este acredita poder conquistar a alma do sábio Fausto, o favorito de Deus. Este trecho da obra aborda filosófica e profundamente as limitações do conhecimento científico, humanista e religioso, além da possibilidade de utilizar a magia para chegar ao conhecimento ilimitado.

Frustrado, Fausto pensa sobre o suicídio, mas é tocado pelas celebrações de Páscoa na rua. Com seu assistente, saem pelas ruas e é neste momento que se encontram com Mefistófeles, o qual, transformado em cão, os segue até a casa. Já transformado em homem, Mefistófeles faz um acordo com Fausto: Mefistófeles fará tudo o que ele quiser na Terra e, em troca, Fausto terá de servir ao demônio no inferno. No entanto, há uma cláusula importante: a alma de Fausto será levada somente quando Mefistófeles criar uma situação de felicidade tão plena que faça com que Fausto deseje que o momento dure para sempre. Fausto e Mefistófeles passam por diversas situações juntos, mas nada agrada a Fausto, até que conhece Gretchen, uma menina por quem se impressiona. Após diversas situações vividas entre Fausto e Gretchen, chegamos à parte II da obra. Nela Fausto desperta em meio a fadas e inicia diversas aventuras com temas distintos. Como Fausto não perde completamente a aposta feita com Mefistófeles, sua parte imortal é levada ao paraíso.

O que chama atenção na obra de Goethe, e com o que se pode pensar nos avanços permitidos pela modernidade e o desenvolvimento tecnológico, é o fato de que o autor transita por diversas sociedades ao longo de sua tragédia. São diversos modelos de ação social em torno do qual gravitam sociedades avançadas e atrasadas, ideologias capitalistas e socialistas. Para o autor, no entanto, tudo surge como uma convergência, selada com o sangue das inúmeras vítimas que se fazem presentes em seu percurso existencial. O processo de desenvolvimento construído por Goethe, no século XIX, concebido como uma aventura humana tornou-se, em nossa era, uma necessidade de vida e de morte dos sistemas sociais.

Não é à toa que vemos, nos tempos modernos, o acúmulo de poder nas mãos de autoridades que, em toda parte, concentram em suas mãos poderes imensos, fora de controle e, muito frequentemente, letais. Não precisamos nos fixar apenas nas grandes guerras que aterrorizaram o mundo, como as duas grandes Guerras Mundiais, a Guerra Fria, as Cruzadas. Falamos das guerras nossas de cada dia. Nos ditos “países subdesenvolvidos”, planos sistemáticos em prol do rápido desenvolvimento significam, em geral, a repressão das massas. Os resultados, quase sempre, são de duas ordens: o aproveitamento, até a última gota, da força de trabalho das massas e atos aparentemente gratuitos de destruição. Quanto aos primeiros, já dizia Fausto “os sacrifícios humanos sangram/Gritos de desespero cortarão a noite ao meio” para alimentar as forças de produção e gerar o excedente necessário à geração de lucro e abastecimento da economia, presentes na história do Trabalho ao longo dos séculos e, ainda, questão muito atual. Já, quanto aos segundos, pensemos nos atentados a Paris, ao horror do cheiro da morte na Síria e na Palestina, nas vítimas da jihad.

Mas, é nos países mais industrialmente avançados do mundo que o desenvolvimento seguiu de maneira mais autêntica as formas fausticas. Neles, os trágicos dilemas definidos por Goethe manifestam a sangue frio o emergente poder. Goethe antecipou um atual dilema da sociedade moderna: o processo de desenvolvimento precisa caminhar no sentido de um desenvolvimento perpétuo. Com isso, queremos apontar que todas as instituições, pessoas e coisas que foram inovadoras e de vanguarda em um dado momento histórico se tornarão obsoletos e da retaguarda em um momento seguinte e próximo. Nosso mundo moderno não é capaz de lidar com essa realidade, não pode sequer encará-la como um protótipo de verdade, não é capaz de assumir-se como o velho futuro, o antigo vindouro, o resto, o trapo que ficou do novo que surgiu.

Por fim, o mito de Fausto serve-nos como uma espécie de prisma, principalmente nos países mais avançados industrialmente, para uma série de visões acerca do nosso tempo e da nossa vida, mesmo que não sejamos capazes de apreende-las – ainda. “A inquietação faustica do homem na história mostra que o ser humano não se satisfaz com a simples satisfação de seus desejos conscientes” (Norman Brown, in Vida Contra a Morte, 1959). É isto que buscamos de mais e mais e mais.


Talita Baldin

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