Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Psicologia, ciência e profissão

Problematizar é preciso! Se as questões acerca da Psicologia enquanto profissão no Brasil não é problematizada, a classe profissional perde – e o mais grave, como consequência, a população atendida sofre os efeitos. Ou seja, é preciso discutir a formação para que se possa discutir o peso que possuem as relações que se constroem nos campos de experiência: o discurso, descolado da realidade, não produz efeitos. Tampouco a prática, sem fundamentação teórica e reflexiva, faz sentido.


arrows-796134_1920.jpg

Recebo de vez em quando o jornal do Conselho Regional de Psicologia, no qual estou cadastrada por conta do meu registro profissional. Há alguns meses li neste jornal um artigo intitulado “Exercício profissional enquanto trabalho: do que estamos falando?”, de Rogério de Oliveira Silva. Seu ponto de vista me fez refletir sobre algumas questões com relação à profissão enquanto prática e também enquanto ciência. O autor discute as condições de trabalho dos profissionais de psicologia na atualidade, destacando a necessidade de redução da jornada de trabalho, a revisão do piso salarial e a melhora na qualidade da formação; ao mesmo tempo em que surge a preocupação com o número de profissionais formados, que cresce em progressão geométrica. Conforme seus dados, “somos, atualmente, cerca de 253 mil profissionais inscritos e ativos no Sistema Conselhos de Psicologia e temos por volta de 164 mil estudantes de graduação espalhados pelo País”. A estimativa é de que chegue a 400 mil inscritos e ativos em 2020. Levando isso em conta, sua questão é: “como lidar com essa realidade do ponto de vista do exercício profissional enquanto trabalho?”.

Resgato a ideia de “problematização”, desenvolvida por Foucault, uma vez que é necessário problematizar a questão da formação e das condições de trabalho. Problematizar, não polemizar! Foucault faz a distinção entre esses dois conceitos se utilizando da noção do jogo, no qual perguntas e respostas forma um diálogo. "Aquele que questiona nada mais faz do que usar um direito que lhe é dado: não ter certeza, perceber uma contradição, ter necessidade de uma informação suplementar, defender diferentes postulados, apontar um erro de raciocínio. Quanto àquele que responde, ele tampouco dispõe de um direito a mais em relação à própria discussão; ele está ligado, pela lógica do seu próprio discurso, ao que disse previamente e, pela aceitação do diálogo, ao questionamento do outro. Perguntas e respostas decorrem de um jogo – simultaneamente agradável e difícil – em que cada um dos dois parceiros se esforça para só usar os direitos que lhe são dados pelo outro, e pela forma de diálogo convencionada" (FOUCAULT, 2004, p. 225).

Portanto, o jogo se estabelece em uma relação em que cada um se esforça por utilizar os seus próprios direitos para sobrepor as suas ideias às ideias apresentadas pelo outro no diálogo. Quando isso acontece, dizemos que o diálogo se sustenta com base na problematização. No entanto, um dos dois sujeitos do diálogo pode tentar se utilizar de mais direitos do que lhe são concedidos e assim entrar em uma discussão baseada na polêmica, sendo que “o polemista prossegue investido dos privilégios que detém antecipadamente, e que nunca aceita recolocar na questão” (FOUCAULT, 2004, p. 225). Neste sentido, o jogo de troca (de ideias e ideais) é substituído pela competição, na qual uma das pessoas busca trazer à tona apenas a sua verdade, tida como única e correta.

Enquanto a polêmica não abre as portas para a discussão e fica centrada na sua própria verdade, a problematização investe na instituição de novos processos, por meio de interlocutores. “O polemista diz a verdade na forma de julgamento e de acordo com a autoridade que ele próprio se atribuiu” (FOUCAULT, 2004, p. 226) e o problematizador busca novas alternativas, por meio da desconstrução de processos instituídos e de novas possibilidades de atuação frente a realidade.

É nesse ponto que retomamos o artigo de Silva, quando o autor questiona o viés político de pensar a formação profissional e o trabalho da psicologia em seus mais distintos campos de atuação. É o momento em que precisamos falar de um “nós”, enquanto classe, e da implicação disso para a Psicologia enquanto ciência e profissão. É por isso que, quando aborda as verdades de uma dada questão, Foucault aponta que a resposta nunca pode ser dada a priori, como objetiva a polêmica, que já chega para a discussão com suas respostas sob bases sólidas e prontas. Assim, alerta que o “nós” não pode ser outra coisa que não um resultado provisório da questão, conforme ela se apresenta no diálogo.

Em outras palavras, problematizar é preciso! Se as questões acerca da Psicologia enquanto profissão no Brasil não é problematizada, a classe profissional perde com isso – e o mais grave, como consequência, a população atendida sofre os efeitos. Ou seja, é preciso discutir a formação para que se possa discutir o peso que possuem as relações que se constroem nos campos de experiência: o discurso, descolado da realidade, não produz efeitos. Tampouco a prática, sem fundamentação teórica e reflexiva, faz sentido. Com base nisso, Silva acredita ser possível construir um novo campo de atuação, mais vinculado com a realidade dos usuários e em que há sintonia entre a verdade (sempre construída e provisória), as relações de poder que transitam pelo campo, os usos que o profissional faz de si em suas práticas e também os efeitos que provoca em outros. Como produção, temos práticas psicológicas voltadas para a autonomia e para a produção de saúde daqueles que delas se beneficiam.

Por fim, Silva conclui apontando que “ao pensarmos em um projeto político a partir do local em que estamos, da representação que ocupamos, não somos nós os atores que irão executar esse trabalho. Quem produz as ações efetivas são os profissionais que trabalham diariamente para fazer da nossa profissão uma realidade” (p. 8) e, assim, convoca os profissionais psi a se aproximarem de seus Conselhos, a fim de trazer para esse universo a realidade das práticas que vivem, pois assim será possível buscar novas formas de problematizar a profissão de psicólogo no Brasil. Esse é um impasse necessário para a construção de novas práticas.

REFERÊNCIAS:

FOUCAULT, M. Polêmica, Política e Problematizações. In: Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense, 2004.

SILVA, R. O. Exercício profissional enquanto trabalho: do que estamos falando? Jornal do Federal, ano XXVI, nº 110, maio/2015.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Talita Baldin