Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Sobre a morte e suas histórias

Talvez a experiência mais difícil de ser vivida seja a morte. No final das contas, representa sempre um quarto vazio, uma xícara de chá pela metade, um livro não terminado, uma palavra que não saiu. É a estátua dos anjos caídos, a senhora magra com um capuz. É sempre quem não se quer esperar, a porta que fecha, o silêncio oco no ar.


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Talvez a experiência mais difícil de ser vivida seja a morte. No final das contas, representa sempre um quarto vazio, uma xícara de chá pela metade, um livro não terminado, uma palavra que não saiu. É a estátua dos anjos caídos em meio às flores secas, a senhora magra com um capuz. É sempre quem não se quer esperar, a porta que fecha, o silêncio oco no ar.

Meu primeiro contato com o tema "morte" foi na adolescência, eu tinha de 13 para 14 anos e meu avô paterno faleceu. Ele era a primeira pessoa próxima que eu perdia. Alguns meses depois, em meados de 2005, Markus Zusak publicou “A menina que roubava livros”. Juntei minha mesada de dois meses inteiros para compra-lo. Eu queria muito ter a posse deste livro! Não me bastava emprestá-lo de alguém. E, de fato, eu estava certa... Ele seria muito importante. Tanto que acompanhou minha adolescência e continua por perto, agora na vida adulta. Suspeito que o amor à primeira vista, já naquela época, tenha sido por dois motivos: primeiro, pela minha paixão enlouquecedora pelos livros e pela biblioteca do Colégio público em que estudei durante todo o colegial e porque "livros" significam muito para minha formação pessoal e profissional. Eu me achava especial quando estava com um livro nas mãos! Livros faziam-me ainda mais especial em um período em que eu passava mais tempo ali, no aconchego da biblioteca, do que no caos que era a minha sala de aula: adolescentes eufóricos e barulhentos. Naquela época eu já era quieta demais para aquilo. O segundo motivo é mais forte, e mais simples: foram os anos em que eu comecei a perder pessoas importantes, e já entender que se a morte as levara, seria para sempre.

Como os pescadores se encantam com o canto das sereias, eu me encantei com o tema Morte e me perdi pelas suas artimanhas e nas páginas em que se inscrevia. Para além disto, não poderia ter imaginado que chegaria ainda mais perto dela com a chegada do ensino superior...

Logo no começo da graduação em Psicologia, com a disciplina de Psicologia do Desenvolvimento, eu devorava os dois últimos capítulos do livro sobre desenvolvimento humano do Eizirik, A velhice e A morte; com o mesmo afinco com que torcia o nariz para os temas da infância e adolescência. A velhice e A morte? Sim. E, não por terem correlação direta, porque NÃO TÊM, mas justamente porque convivi com muitas provas de que a velhice pode chegar e ser cheia de vida, então não entendia porque os capítulos sobre a morte sempre vêm após a velhice nos livros de Desenvolvimento Humano e eu queria entender! Se hoje já tenho esta resposta? Não! Mas também tenho a convicção de que eu não cheguei nesses dois temas à toa e queria ser capaz de dizer que embora seguisse com tanto afinco pelos caminhos do envelhecimento humano e, mais especificamente, do meu interesse pela velhice e pelo morrer, elas são categorias distintas, afinal, bebês, crianças, adolescentes e adultos jovens também morrem. Dando-me conta disto, saber que um dia todos nós vamos morrer me instigou a viver.

“A menina que roubava livros”, “Solidão dos Moribundos”, “Sobre a Morte e o Morrer”, “As intermitências da Morte”, “Ritos de Infância”, “As Criadas”, “A Valsa nº 6” e tantos outros... Foram textos e mais textos - leituras, ensaios, encenações. Todos eles me ensinaram um pouquinho! "Morri" em palco também, várias vezes, com Helena, com Claire, com Sônia - fomos companheiras do início ao fim. De algumas, ainda sou: ainda me arrepio quando recito Sônia, em “A Valsa nº 6”... "Um defunto contamina tudo ao seu redor - a mesa e a dália". Todos estes textos me prepararam com forte consistência teórica para entender a Morte, para dar algum conforto aos idosos, no Asilo em que trabalhei durante todos os anos da graduação, quando eu podia sentir que era a última visita. No entanto, nenhum deles, sequer todos juntos, me prepararam para encarar a morte como uma "perda pessoal" – e é precisamente neste ponto em que fraquejo! Peguei-me pensando nas pessoas que passaram por aqui, que estiveram por perto, e especialmente do dia em que minha avó paterna faleceu... Eu conversava com uma amiga e ela dizia "você chegou em uma idade em que começa a perder as pessoas". Não sei se há uma "idade" para isso, mas sim, aos vinte e poucos, eu cheguei! E me assombro ao perceber... Eu não estou preparada! Aliás, quem está?

Um pouco antes de sua morte, dizia Rubem Alves que "a gente devia ter uma especialidade destinada a cuidar das pessoas diante da chegada da morte, assim como há a obstetrícia para cuidar da vida que chega"... Aliás, penso que haja muitos "a gente devia" com relação a isto... A gente devia falar mais sobre ela, a gente devia ser mais claro com as crianças diante das angústias de perder alguém, a gente devia saber se colocar diante do silêncio que acomete o suicídio alheio e também diante da velhice senil que chega. A gente devia se preparar para viver este dia, enfim! O de morrer, por que não? Se a Morte pudesse ser acolhida como uma última etapa da vida, e não como uma fatalidade (e quanta ironia!), morrer seria mais leve. E viver também.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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