Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Sobre as desordens necessárias

Hoje é dia de te convidar para chegar, para entrar, para ficar. Para ficar um pouco mais. Para me fazer esquecer daquele projeto que eu tenho que escrever. Hoje é dia de sair por aí, com você, para te encontrar e me esquecer. E, meu bem, acredite! Para quem vive uma vida assim, toda em ordem, convidar alguém a entrar e provocar uma confusão no dia, na casa, na vida, é o maior ato de amor que esse alguém poderia oferecer.


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Às vezes, no meio do meu dia, eu sinto que preciso de bagunça. No meio do quarto organizado, no meio da casa limpa, no meio da cozinha em ordem, no meio dos compromissos primorosamente escritos e descritos na agenda: eu preciso de bagunça! No final de uma semana de cabelo alinhado, roupa bem passada, sapatilhas com cores neutras e brilhantes: eu preciso de bagunça.

No meio de dias e mais dias em que tudo vai em ordem, a vida, a casa, o coração, eu sinto necessidade de que algo apareça e me tire do compasso, estrague os meus planos, faça confusão nos meus sonhos. No meio de uma vida metódica e pragmática, um pouquinho de confusão, por que não?

Nós passamos nossos dias nos preocupando com a boa aparência, com uma boa apresentação, com a dicção perfeita, os melhores argumentos, os melhores cumprimentos, a admiração. Mas hoje é final de semana, então, hoje não!

Hoje quero colocar aquele biquíni estampado, tão diferente do preto e do branco do meu dia a dia no trabalho. Hoje, eu quero meu cabelo sujo, porque quanto mais sujo, mais cacheado e bonito ele fica. Hoje quero minhas unhas sem esmalte, para me lembrar o que realmente faz sentido nesta vida. Hoje eu não quero restaurantes, não quero textos, artigos, planilhas, livros técnicos. Hoje, também não quero o sorriso preso e os cílios grossos de rímel. Não quero a maquiagem, as lentes de contato, o batom forte. Hoje eu só quero o sorriso, aquele antigo, aquele que vinha fácil antes de achar que eu devia ser séria para ser levada a sério. Hoje quero mais música alta no meu quarto e que meu prédio inteiro escute o que estou ouvindo. Quero chuva no final da tarde, que me pegue desprevenida, sem guarda-chuva; que desmanche o penteado, que borre meu lápis, que dispare o coração sem me sentir presa entre quatro paredes e uma esteira ergométrica. Que hoje eu possa comer o que quiser, a hora que quiser. Que eu possa dormir tarde e acordar tarde, e ficar o dia todo com preguiça de fazer qualquer coisa que mantenha minha vida arrumada. Hoje, eu quero mesmo é bagunçar meu relógio biológico, marcar um compromisso para daqui 15 minutos e chegar lá me sentindo linda.

Hoje é o dia de te convidar para chegar, para entrar, para ficar. Para ficar um pouco mais. Para me fazer esquecer daquele projeto que eu tenho que escrever. Hoje é dia de sair por aí, com você, para te encontrar e me esquecer. E, meu bem, acredite! Para quem vive uma vida assim, toda em ordem, convidar alguém a entrar e provocar uma confusão no dia, na casa, na vida, é o maior ato de amor que esse alguém poderia oferecer.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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