Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Sobre corações expostos

Há muita gente por aí que anda com o coração na mão, à mostra e suscetível aos novos contatos, às novas relações. Não são melhores nem piores que nós, que somos mais cautelosos. No final das contas, andar por aí com o coração exposto também faz parte da fragilidade humana – o que, às vezes, é até um engodo.


graphite-670990_1280.jpg

Viver dói um pouco. É preciso expor algumas marcas que nem sempre ficamos contentes de mostrar. Aliás, em geral, sentimos medo em expor cicatrizes ainda abertas.

Há sempre um certo desespero em viver. Viver é sempre urgente e preciso. E, nesta caminhada de vivente solitário, impossível viver sem as marcas. Aliás, o próprio viver já é uma delas. Ao aceitarmos um pacto com a vida, recebemos também a marca de existir e, conforme avançamos pela tênue linha de existir, mais e mais marcas nós ganhamos. A cada dia uma nova marca, uma nova ferida aberta. Marcas que podem ser expostas ou não, mas que, independentemente disto, ficam sempre ali, à superfície, e ninguém precisa procurar muito para vê-las. O mais interessante, no entanto, é que nos identificamos uns com as marcas e cicatrizes dos outros, e assim formamos laços por similaridade.

Nós nos denunciamos, nos entregamos sem querer, e em um pequeno vacilo acabamos mostrando que somos humanos com feridas expostas. No encontro com o outro, nossas ataduras caem. Sentimo-nos tão frágeis e vulneráveis diante do conhecimento do outro sobre nós mesmos que nos apavoramos. O medo é tão grande que ficamos confusos, envergonhados... Somos desastrados e denunciamos nossos pequenos atrapalhos diários: diante de tantos paninhos quentes, com os quais preparamos retrógradas ataduras para tapar nossas feridas, insistimos em fazer malabarismos pouco ensaiados para manter os paninhos nos locais adequados. Mas, onde seriam tais lugares? O que deveríamos e o que não deveríamos mostrar? E por quê?

Por outro lado, há também aqueles seres mais ousados... Há muita gente por aí que anda com o coração na mão, à mostra e suscetível aos novos contatos, às novas relações. Não são melhores nem piores que nós, que somos mais cautelosos. Não são bons e sequer são ruins. No final das contas, andar por aí com o coração exposto também faz parte da fragilidade humana – o que, às vezes, é até um engodo.

Mas, apesar de tudo, abrir o coração e deixa-lo livre por aí tem lá suas vantagens... Quem nunca se imaginou se jogando de cabeça em uma relação? Quem nunca se forçou para ver no espelho a imagem de alguém que vive uma paixão louca e fugaz? Quem nunca desejou se perder com o coração se esvaindo de amor pelo mundo? Quem é que nunca desejou construir castelos de sonhos sobre a areia do deserto, só para no final degustar sonhos em formato de castelos – fortes e imponentes em uma vida completamente vazia?

Mas, infeliz – ou felizmente – são poucos os que andam por aí como o coração a mostra. É um risco grande e com o desafio aceito uma vez, não há qualquer possibilidade de volta. Essa pequena parcela de agraciados, em geral, vive de forma muito mais intensa, são os abençoados com tal dádiva – julgam-se! – de encontrar alguém digno de seu coração e, em tempos como estes, encontrar alguém que receba seu coração, sem cortes nem melindres, é como ganhar na loteria: a concorrência é dura!

Ei, você que anda por aí de coração à mostra, tudo bem caminhar lento e desapressado. Tudo bem estar mais aberto e sensível ao mundo. Mas, cuidado! Não é justo consigo mesmo se jogar sempre de cabeça, mesmo quando se sabe que a poça é rasa e poucas vezes justa. Tombos de cabeça em geral são mais graves, provocam febre alta e dores de cabeça, além de cicatrizes incuráveis.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @obvious //Talita Baldin