Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Corram para as montanhas!

Eu buscava uma tensão menos tensa que a que vivia. De forma alguma eu queria tranquilidade. Mas, com certeza, precisava dar um tempo na vida muito agitada na metrópole. Eu buscava um pouco de paz diante do meu medo da perda e da minha esquiva de lutos recentes. Eu queria me afastar um pouco do trabalho que me pressiona, do mestrado que me angustia, dos relacionamentos que dão pouco ou nada certo, da doença que ronda minha família. Tudo o que eu queria era um descanso, era um correr para as montanhas. E foi o que fiz. Com literalidade, com silêncio, com o coração cheio e o estômago vazio.


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Vez ou outra todos precisamos de uma “pausa tensa”. Aprendi teoricamente sobre esse conceito no final do ano passado, com uma professora ótima e que marcou meu primeiro semestre no mestrado e o início de uma vida nova, que começa no Rio de Janeiro (mesmo que ela não faça nem ideia disto!). Isso quer dizer que mesmo antes de saber o que a “pausa tensa” queria dizer, eu já buscava por ela.

Sair de casa, deixar o ninho, alçar voos mais longos e ousados; foram uma das minhas primeiras pausas tensas. A segunda, ou a terceira, ou a quarta, foi agora, recentemente, na primeira viagem internacional que fiz, de quatro dias em Santiago, no Chile.

Eu buscava uma tensão menos tensa que a que vivia. De forma alguma eu queria tranquilidade. Mas, com certeza, precisava dar um tempo na vida tão agitada da metrópole. Eu buscava um pouco de paz diante do meu medo da perda e da minha esquiva de lutos recentes. Eu queria me afastar um pouco do trabalho que me pressiona, do mestrado que me angustia, dos relacionamentos que dão pouco ou nada certo, da doença que ronda minha família. Tudo o que eu queria era um descanso, era um correr para as montanhas. E foi o que fiz. Com literalidade, com silêncio, com o coração cheio e o estômago vazio.

Sábado, dia 06.06.2015

As oito horas em ponto eu acordo com o telefone do hotel tocando. Atendo. Do outro lado da linha aquele sotaque forte e arrastado dos chilenos. Ele sabia que eu era brasileira, foi breve, e me disse algo tão rápido e alto que não consegui entender. Mas sabia: a van da agência com que íamos ao Valle Nevado havia chegado! Embarcamos em nosso hotel, na Providencia, rumo às Cordilheiras, sem café da manhã e com um pouquinho de fome, com roupas que não pareciam me aquecer o suficiente e uma garrafa de água com gosto doce e difícil de tomar. Depois de uma hora e meia em uma subida vagarosa e cheia de paradas para fotos, lojinhas e barracas de souvenires e roupas quentes para aluguel, trilhando passos por ruas serpenteadas e estreitas, além de muito bem conservadas, nós chegamos. Mas o topo ainda estava longe. É claro que eu queria chegar lá, bem perto da neve, “no topo do mundo”, sentir o vento congelante bater no meu agasalho alugado pelo rombo de 24000 pesos. Eu queria sentir aquele sol mais perto do meu rosto, o vento cortante deixando minha face um pouco queimada e os lábios ardendo. Eu queria viver tudo aquilo nas próximas duas horas que tinha e minha subida ao ponto mais alto da Cordilheira era de viajante solitária. Continuava me acompanhando o silêncio, uma câmera fotográfica e duas ou três decepções.

Depois de mais alguns minutos de passos largos e respiração ofegante, chegamos lá. Eu e meu corpo. Eu e as botas pesadas que não eram minhas. Eu e meus olhos, que sei, ficam mais verdes ao se misturarem ao azul intenso do céu. Não posso explicar a imensa vontade de chorar que me acometeu, o nó na garganta! E não era por achar que, às vezes, a vida nos exige um pouco demais, sequer porque eu tinha motivos para ficar triste. Eu queria chorar porque sentia que estava no lugar mais lindo do mundo, o lugar em que devia estar, um lugar para mim. Ali, em meio às montanhas geladas da Cordilheira dos Andes, há mais de 3000 metros de altitude, distante de tudo e de todos os rostos conhecidos, eu senti a vida que existia dentro de mim, eu senti um amor que achava que não era capaz de sentir. Por mim, pelas pessoas, pela vida, pela natureza, e por tudo aquilo ali que meus olhos eram capazes de ver e que minha boca não é capaz de definir. Dali, do ponto mais alto a que podia chegar caminhando, eu me sentia gigante, imensa, dona do mundo e; ao mesmo tempo, pequena e impotente diante da grandeza de tudo que existia lá fora. Então era isso! Essa era a minha tão desejada e esperada “pausa tensa”. Então era esse meu grito: "ei, mundo! Dê-me um pouco mais de tempo, e tenha um pouquinho mais de paciência"!

Eu buscava esse sentimento sem nome, que me faz transbordar e que me completa ao sobrar. Que me prende a respiração e devolve a vida. Eu buscava vida. E encontrei. Correndo para as montanhas. Correndo de relacionamentos fugazes. Fugindo de objetivos de vida rasos e inconsistentes. Eu queria mais. Mais choro, mais grito, mais sol queimando a face, mais vento rachando os lábios, mais pausa tensa em sábado de outono transbordante.

Depois de tudo isso, aí sim, eu poderia voltar.

Então, como canta uma de minhas bandas favoritas... “Deixa o sol bater na cara, esqueça tudo o que lhe faz mal/Deixe o sol bater no rosto, que aí o desgosto se vai” (Cidadão Quem)!


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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