Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A arte é o sintoma do artista

Que viver é esse que somatizamos, nós, artistas, em prol de um desejo maior do que a nossa própria existência é capaz de externar de forma consciente?


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Um dia desses , estudando psicanálise, me deparei com uma palestra de algum pensador contemporâneo famosinho do qual não consigo lembrar o nome, nem que é. Ele disse que Brecht andava um pouco contrariado com os preceitos da psicanálise e de Freud, mas que, em um encontro com Jung, Brecht se propôs a ouvir o que ele tinha a dizer sobre a teoria que começava a fundar, a psicologia analítica. O palestrante ressaltou que muito interessou a Brecht a fala de Jung acerca do sintoma. Ele disse: “o sintoma de todo artista é a sua arte”. Passando por um momento em que vinha tendo dificuldades para escrever, por meio daquelas palavras de Jung, Brecht se sentiu autorizado a escrever. “Se é esse meu sintoma, pois que seja, então”. Foi um descompromisso (algo de que ele podia dizer que "não tinha culpa") compromissado, por ser aquilo que podia produzir enquanto sujeito. E então, Brecht viveu um momento de intensa produção artística.

Como disse, não consigo me recordar de quem era a palestra, apenas que está no Youtube, e nem encontrei referência alguma sobre a situação pela internet. Ainda assim, gostaria de me utilizar desse exemplo para abordar essa questão que há algum tempo também tem me atravessado enquanto artista. Nas aventuras pela psicanálise, na produção de uma dissertação com base lacaniana abordando a questão da narrativa, percebo que o sujeito, para garantir a existência, abre mão de alguns materiais mnêmicos e se apoia em outros. Na luta constante entre Id (nossos desejos primitivos, pulsões e afetos inconscientes) e superego (o herdeiro do Complexo de Édipo, a casa das leis, das normas e das interdições), o Ego conciliador trabalha com a barreira da censura, desenvolvida a partir do conceito de pré-consciente, da primeira tópica freudiana.

A Arte, nesse contexto, é sintoma quando reconhecemos que, pela via da linguagem, conteúdos que inicialmente foram recalcados (no inconsciente) e reprimidos (no consciente), emergem. No caso de Brecht, a palavra. O texto. Mas não apenas ele. Na complexidade de sua dramaturgia, como não se render à arte como forma de vida?

Nós, artistas, padecemos do mal da somatização, mas nem sempre ela vem como foi estudada por Freud e outros teóricos ao longo da história, como forma de encobrir lembranças traumáticas. Arrisco-me a dizer, e não faço isso sozinha pois antes de mim houveram Boal, Artaud e Duchamp, além de outros; que, na arte, o sintoma aparece como denúncia. É instrumento político de libertação. Já nos disse o próprio Brecht que nada é impossível de ser mudado. Sua vinculação com a realidade social tem cunho político quando seu sintoma age a favor da crítica: “desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”. Que sintoma você nos apresenta, hein Brecht?! Que questionamento enriquecedor para a compreensão da arte como aquilo que emerge de uma constituição de sujeito que se permite atravessar. Pela vida, pelo amor, pelo trágico, pelo insano. Que amor é esse que somatizamos, nós, artistas, em prol de um desejo maior do que a nossa própria existência é capaz de externar de forma consciente?


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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