Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Não fazemos parte disso

Tem gente que não nasceu para esse mundo. Que não nasceu para partilhar disso aqui.


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Imagem: "Desventuras em série".

Falta empatia no mundo. Esse é nosso problema mais grave. Com a falta de empatia fracassamos no respeito, na tolerância, na compreensão. Nossa maior dificuldade nos tempos atuais é enxergar o outro, é perceber que ele está ali e que se você não é capaz de curar a sua dor, ao menos acolhe-la, respeita-la. Ao menos ouvir. Ao menos tentar se aproximar para ser mão que acolhe e não palavra que fere.

A falta de empatia do mundo – e das pessoas do mundo – causam uma dor imensa naquelas pessoas que estão por aqui mais dispostas a ser do que quase todo mundo. Como é possível que não sejamos capazes de perceber que existem comentários que não devem ser feitos, que devem ficar guardados? O outro não pediu para você falar, ele não quer saber o que você pensa e ele não precisa da sua opinião se não for para oferecer compreensão. Dizer que sua amiga engordou, se todo mundo está vendo isso, não a ajuda em absolutamente nada – e ela também sabe. Dizer que sua roupa não combinou se vocês já saíram de casa e ela não pode trocar não traz nenhum conforto. Apontar que o cabelo dela, na sua opinião, não se ajeita de jeito nenhum não lhe acrescenta nada além de sofrimento. Então não diga. Cale. Guarde para você.

Olhar para todas essas pessoas que agem tão despreocupadamente, que não se importam com os outros, que parecem que dizem coisas apenas para humilhar e magoar, para se saírem melhor, para tentarem convencer efusivamente a si mesmos daquilo que não são capaz de acreditar; tornam o mundo um lugar hostil, intolerável para almas mais sensíveis. O mundo se torna hostil para aqueles que se esforçam em continuar encontrando algo de bom nesses seres que andam por aqui sem enxergar a dor do outro, sem reparar que eles também precisam de afeto, de resposta, de compreensão. Que não entendem que o outro sente, que se preocupa, que espera que o olhar seja retribuído.

Falta empatia no mundo. E tem gente, que é assim mais sensível, e não consegue conviver com as pessoas achando que não ter empatia é normal, aceitando isso numa boa, achando que eles é que estão errados querendo ser diferentes de todo mundo, que tinham que ser iguais a todo mundo. Esses seres tentam desesperadamente encontrar indícios de que a existência é possível, muitas vezes, pela destruição de si mesmos. Buscam desesperadamente encontrar meios de garantirem que sua percepção é correta quando tentam entender que estão vivos, porque parece que esse mundo não lhes pertence, que não fazem parte disso. Não conseguem olhar para as outras pessoas, para as outras coisas, e dizer que fazem parte delas.

Sabiamente, Clarisse Lispector sentiu a dor desse mundo em sua própria falta de empatia. Em "Perdoando Deus": "é porque no fundo eu quero amar o que eu amaria e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele". Não são capazes de amar esse mundo que se consome pelas traças, são incapazes de compreender a falta de compreensão. Às vezes acham que não nasceram para esse mundo, é só olhar ao redor para perceber que não nasceram para isso, que não são capazes de conviver com isso. Sentem por vezes uma mistura de tristeza e revolta, um certo ódio. Desses seres que têm as praias mais lindas do mundo e que deixam seus restos e lixos jogados na areia, desses seres que sacam uma faca e dizem palavras horríveis gratuitamente para conseguir quaisquer dez reais.

Eles não nasceram para esse mundo, não nasceram para partilhar disso aqui.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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