Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

A precariedade da condição humana em The Counselor

Esse é o mundo que criamos. "E quando deixar de existir, esse mundo também vai deixar de existir. Mas aqueles que entendem que estão vivendo nos últimos dias do mundo não podem adquirir um significado diferente. A extinção de toda realidade é um conceito que a renúncia não pode impedir".


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O que era para ser apenas mais um filme sobre o tráfico de drogas da América Latina para os Estados Unidos, envolvendo sangue e uns bilhões de dólares, pode se tornar numa surpreendente análise da vida humana.

Counselor, traduzido para o português como "O Conselheiro do Crime" demonstra uma rede bem montada de ricaços latinos vivendo nos Estados Unidos à base do tráfico de drogas. Não darei “spoilers” do filme, por isso, esta descrição basta. O que chama atenção, no entanto, é que um filme de ação sangrento e daqueles que os brasileiros adoram por abordar o complexo sistema da Inteligência Americana, na verdade, e bem sutilmente, faz uma crítica à desvalorização da vida humana, facilmente trocada por alguns poucos, ou muitos – a depender do caso – , punhado de dólares.

Por outro lado, a miséria de nossa condição é escancaradamente abordada pelas mortes sem fim, que a máfia do tráfico organiza na fronteira entre México e EUA, nos tiros e mais tiros, nas rajadas de sangue que mancham as rodovias em meio a luta pela posse de um caminhão carregado com cocaína. A cena em que uma família limpa um caminhão sujo com sangue é devastadora.

Também não vou contar o final, pois quero dizer para que não assistiu que veja este filme, mas apenas se achar que dá conta de se deparar com a pobreza que representa nossa existência. Os "bonzinhos" não sobrevivem. Os inocentes, morrem. Todos pagamos por nossas culpas na Justiça terrena e não há salvação além desta. Freud, em Mal-Estar na Civilização, aborda a felicidade e nos mostra que o ser humano não nasceu para ser feliz. No entanto, a fim de que haja um mínimo de ordem e a vida se faça possível em meio ao caos, criamos falsas liberdades, falsas felicidades, para que a existência se torne possível de ser vivida. Inventamos pulsões de vida e nos fazemos sujeitos nessas brechas. Talvez não seja a toa que a realidade do Brasil indica que os adolescentes que "entram" para tráfico sabem que sua expectativa de vida é 30 anos. E topam isso. Um prazer imediato e com prazo de validade, datado.

Em The Counselor, essa vida má, caótica, nos é apresentada no real do corpo. Do corpo que resiste, mas que morre. E, cena a cena, fica mais assombroso em meus olhos, o quanto, realmente, não nascemos para ser felizes. Todos nossos tesouros, de uma forma ou de outra, se perdem pela lama da mediocridade humana. Nos perdemos, para podermos nos encontrar nos olhos dos outros, fazendo uma referência a Lacan.

“É o mundo que criou. E quando deixar de existir, esse mundo também vai deixar de existir. Mas aqueles que entendem que estão vivendo nos últimos dias do mundo não podem adquirir um significado diferente. A extinção de toda realidade é um conceito que a renúncia não pode impedir. E ainda, nesse desespero, que é transcendente, encontrará compreensão antiga e que a pedra filosofal será sempre encontrada desprezada, enterrada na lama. Isso pode parecer pouca coisa face à enganação, até que a enganação ocorra. E então, todos os grandes desígnios e todos os grandes planos serão desvelados, ou dispostos e revelados, por aquilo que são” (in The Counselor, tradução livre).


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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