Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Ao paciente de um bom terapeuta

Sair de uma terapia é aprender a lidar com isso que vai e que volta, e que insiste em sempre desarrumar a casa, logo depois que a gente guardou a vassoura e fechou o portão.


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É conhecida a célebre ideia de que "ninguém vai para uma terapia para ficar bem". Não necessariamente. Não apenas isso. Em geral, é verdade, as pessoas chegam em uma terapia pesadas, fartas, cansadas. A função de uma terapia é que, pouco a pouco, se possa ir livrando da poeira em excesso, dos cacos que sobram, dos excessos de quem se é, daquilo que não se tem mais encaixe. A ideia de uma terapia é que se vá livrando daquilo que não serve mais, como as roupas antigas, que continuam com boa aparência, mas não caem mais tão bem assim em corpos que mudaram com o tempo e as pancadas da vida.

Cada terapia é uma terapia. Os motivos para buscá-la são diversos, assim como os efeitos são diversos daquilo que se esperava no início. Há sempre surpresas pelo caminho. Com ela, algumas pessoas abandonam o jeans 34, outras abandonam o medo de engordar, há ainda aqueles que deixam de lado a inconstância para morrer. Aos poucos, é possível abandonar algumas pequenas ou grandes obsessões, se abrir para algumas outras liberdades. A terapia proporciona uma compreensão mais profunda daquilo que deixa de ser um comer emocional, para abrir novos horizontes para a pergunta "você tem fome de quê?". Com uma terapia, algumas pessoas aprendem a se despedir dos receios, dos relacionamentos destrutivos, aprendem a desviar das pressões desnecessárias e a respirar entre as pausas que a vida permite. E quem nunca deixou uma seção - a primeira, uma do meio, ou a última? - engolindo o choro e dizendo que eu não podia dizer mais nada? Não naquele dia, não naquele momento, mas algum dia sim, em breve, algo mais lhe seria possível.

Há também os receios após uma "alta", dada pelo terapeuta ou pelo paciente/cliente/analisando. Fica sempre aquele certo receio - um medo - de que não se tenha força suficiente para seguir sozinhas. Algumas pessoas têm medo do fim. Às vezes, é só medo. Sim, pode ser isso mesmo, apenas um medo. Mas pode ser que não - e aí, então, é preciso coragem suficiente para reconhecer que talvez ainda não seja, realmente, o momento de seguir em frente, sozinhas. Mas, se não for, o bom de tudo é que um bom terapeuta sempre sabe deixar a porta encostada e a luz acesa.

E, no final das contas, o efeito maior de uma terapia - deve - ser este: permitir que seu cliente/paciente/analisando siga mais leve, possa viver mais essa liberdade que as pessoas sabem que têm, mas que tantas vezes parece estar longe demais. É aprender a lidar com isso que vai e que volta, e que insiste em sempre desarrumar a casa, logo depois que se guardou a vassoura e fechou o portão.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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