Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Corpo-sacrifício e o Deus Capital na Ilha da Madeira

Qual o custo de uma vida? E qual o seu preço?


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O documentário “Território de Sacrifício ao Deus do Capital: o caso da Ilha da Madeira” retrata as agressões ambientais provocadas pela exploração da Ilha da Madeira, localizada no município de Itaguaí – RJ . Por meio de relatos de moradores da Ilha, é possível perceber as mudanças que a introdução de indústrias no local causaram tanto do ponto de vista ambiental, com a morte de animais, depredação do meio ambiente e insalubridade do ar e da terra; como pelas dificuldades enfrentadas pelos moradores após a destruição do lugar em que moram.

Como tema central, chama atenção os problemas que o “progresso” pode trazer à vida humana. Os moradores relatam que “a gente não pode ir contra o progresso”, mas contrapõem com as dificuldades que encontram por perder o ambiente que era a possibilidade de manter sua subsistência. Relatam também que logo na chegada das indústrias a Ilha foi vista como uma cidade sem dono, uma vez que não existia muita fiscalização do governo, então as empresas puderam fazer o que bem entenderam. Ela foi vista como uma oportunidade. Com a promessa de trabalho e avanços, que os próprios moradores questionam e alegam serem ilusórias e cativarem apenas aqueles que não têm informações suficientes, o mundo do Capital chegou lá, destruiu, absorveu tudo o que havia de bom no lugar e depois disso é que surgem as preocupações ambientais, impossibilitando a pesca, talvez a maior fonte de economia da Ilha, que se tornou criminalizada.

Feito este breve relato, ressalta-se que o documentário proporciona uma reflexão acerca do progresso e os impactos que ele traz para a vida das pessoas e do ambiente que lhes rodeia. Em nome do dito “progresso”, processo comum em tempos de valorização do capital, corrida contra o tempo e ganância de ter sempre mais, microssociedades têm sido destruídas: vidas são números (como foram as mortes provocados pela insalubridade do ar e da água na Ilha da Madeira) e que se perpetuam, metaforicamente ou não, em outros contextos da vida moderna. Vivemos ilhados em nossas necessidades individuais, em detrimento do bem coletivo.

Questões éticas, que no sentido mais amplo da palavra quer tratar da reflexão que se faz ao levar em conta uma sociedade em específico, são atropeladas pelas ações morais, as quais valorizam a satisfação imediata a qualquer custo.

Verifico em minha prática profissional também essa experiência. O homem moderno sacrifica o corpo, transforma-o no corpo-máquina, para satisfação de necessidades que o levam ao mais-gozar, trazendo um conceito lacaniano*. No entanto o mais-gozar do capital é a perda da vida para além da existência. Aliena-se ao olhar do Outro (neste caso representado pelo Capital) a ponto de não se reconhecer mais na própria existência. Faz-se ser de um corpo que não é “ser” no sentido estrito. É aí que a medicalização da vida, o impedimento do sofrimento, a imposição da satisfação, são imperativos e o Capital se torna deus em um “território de sacrifício”. Esse território se materializa no corpo do sujeito, em termos foucaultianos, num corpo docilizado**.

Por fim, as perguntas que não se querem calar são: qual o custo de uma vida? E qual o seu preço?

*Mais-gozar, para Lacan, seria algo do campo do Real (do inominável). No mais-gozar o sujeito é levado a algo além da satisfação do prazer e/ou da necessidade. Em um exemplo prático, é como quando se gosta de brigadeiro, mas se come 100 brigadeiros de uma vez só, o que provoca o efeito contrário ao do prazer em comer brigadeiros: come-se até o ponto de ficar enjoado deles.

**O corpo dócil, para Foucault é o corpo trabalhado para servir para o capital. Em Vigiar e Punir, Foucault define que é dócil um corpo que pode ser submetido, utilizado, transformado e aperfeiçoado.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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