Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

Das dores que ninguém cura

Na hora do dizer adeus, na hora de se reconhecer sozinho na selva de pedra, quem, hein, quem é que olha por ti?


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Há dores que não passam nunca. Mas há aquelas que passam. Das que passam nos ocupamos por um tempo, passamos soluções para limpar, pomadas para cicatrizar, paninhos para proteger e dedos para acalmar. Com alguns dias, meses ou anos elas se vão. Cicatrizam. Deixam sua marca, mas são pré-esquecidas, deixam de fazer parte da memória recente para se tornar uma lembrança que só será revivida quando se passarem os olhos por aquelas marcas, quando elas, por algum motivo, se tornarem novamente o centro de alguma pergunta ou uma mancha tangencial em uma memória menos importante e impactante.

O problema mesmo são as dores que não cicatrizam. Aquelas para as quais não encontramos de jeito algum a solução mais adequada, nem pomadas que possam ser indicadas, nem há no mundo paninhos quentes suficientes para suturar uma dor para sempre aberta. Disse o poeta que as mães podem fazer passar quase tudo: “Quando éramos pequenos/mamãe passava a mão onde sentíamos dor/e dizia: Já passou, já passou, já passou.” (Paulo Becker). Quando somos pequenos. Na vida grande, na cidade imensa, nas dores profundas, somos pássaros sem ninho. Somos pássaros construindo ninhos. Hoje somos nós quem passamos as mãos para acalmar, “Hoje passo eu mesmo a mão nos meus machucados/e repito: Já passou, já passou, já passou.../Mas há dores que nem mamãe não resolve.” (ibidem).

Sim, além dessas, das quais nos curamos sozinhos, há aquelas outras... Ah, essas dores... Nem as mães são capazes de curar! Alguém que foi embora, um parceiro que partiu para não voltar, um ente, um amigo, um amor. Em meio às nossas dores grandes demais para os paninhos quentes, profundas demais para serem cicatrizadas, nos encontramos com o real de um corpo que não se cura. Esse é um real que não é possível de ser simbolizado, como nos diria Lacan, um real com o qual nos encontramos na hora do pacto final. Na hora do dizer adeus. Na hora de nos reconhecermos sozinhos na selva de pedra. Diz quem, hein, quem? Quem é que olha por ti?


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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