Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

E se fomos vítimas de vítimas?

Uma análise de implicação sobre a violência nossa de cada dia.


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Fui assaltada há alguns dias. Acho que foi a situação mais complicada que eu vivi nos últimos anos. É incrível como no que deve ter sido menos de um minuto você consegue pensar em tantas coisas. Passei diversos dias tendo pesadelos com a situação, com os olhos, com a faca. Durante diversos dias ficou rodando na minha cabeça a violência daquelas palavras, o quanto a situação foi gratuita, o quanto foi desnecessária, como não precisaria daquilo tudo. E aqueles olhos... Ah, aqueles olhos. Ainda os vejo quando fecho os meus. Não lembro do rosto, das roupas, das feições, mas eu lembro da cor, do formato, da forma como me olhavam.

Apenas depois de vários dias, com incentivo de uma amiga, é que consegui escrever sobre isso. Ela suspeitou que daria uma boa análise de implicação disso tudo. Falou-me sobre isso quando lhe disse que o que me deixava mais chateada com relação a tudo é a violência das palavras, aquela violência toda desnecessária direcionada a mim. Não achei justo. Porque, afinal, não sou eu uma dessas pessoas que defende esses caras? Que olha o contexto, que tenta entender, que se põe no lugar, pergunta quem, afinal, é a vítima no meio disso tudo?! E me faço essas perguntas todas porque naquele, talvez, um minuto que tinha um cara me fechando entre o seu corpo e a parede com uma faca nas mãos eu vi que a minha vida não valia lá muita coisa. Valia um celular, que eu me recusei a dar, e então poderia ser 10 reais. Só isso.

Pois o incômodo daquilo que vivi e o nó na garganta que persistia quando eu tinha que andar do ponto de ônibus até a minha casa, uns 50 metros, me tirou o ar por várias noites. Então, lá fui eu tentar entender um pouco mais sobre o que ela queria dizer com “análise de implicação”. Resgatei o, ainda pouco estudado por mim, Lourau. Pensar em análise de implicação, no contexto institucional, é problematizar os objetivos e propostas quando da análise em campo de pesquisa. Assim, o pesquisador se torna também sujeito de pesquisa, parte da construção do objeto de pesquisa. A implicação nada mais é que um modo de “materialização”, uma análise das contradições e conflitos do fenômeno que se quer analisar.

Está aí a charada! Minha amiga matou a charada. Aliás, ela fisgou qual seria a grande charada. Dá sim para pensar em análise de implicação com o assombro da experiência que vivi. Pois, ao mesmo tempo em que defendo aquele que é vítima de um sistema exclusivo e que não dá tréguas, vivi a difícil situação de tentar continuar defendendo-o quando preciso entender que a vítima na história é ele, e não eu. E como é difícil pensar assim quando deixa de ser "objeto de estudo" para se sentir na pele, não é?


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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