Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro.

O corpo sem órgãos e a pausa no contexto do jogo cênico

O corpo rompe com os limites e com as barreiras. Vaza. Corpo e pausa, estrutura e lapso. Enquanto o corpo composto por órgãos nos vincula à vida orgânica e presos à humanidade, o corpo sem órgãos produz subjetividade para o personagem, produz sua existência. Embora o desgaste físico e a certeza de que o corpo não aguentasse mais, o corpo sem órgãos não arrebenta - ele suspira entre uma e outra pausa mais longa. Ele resiste.


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Nunca gostei de ver filmagens de peças que fiz. Nunca gostei de me ver por trás das câmeras, me incomoda. Mas, excepcionalmente, desta vez eu vi e fiquei por ali, porque algo me chamou atenção e havia algo a mais que queria ver. Havia momentos de nossa peça em que tínhamos pausas mais longas e que eu as sentia intermináveis. Realmente, muito longas. Mas, achei até engraçado que aquelas pausas gigantes não existiam. Cheguei a uma consideração importante: a pausa cênica não é da mesma ordem de Kronos que a pausa real. Ela não é sentida da mesma forma.

No jogo de cena a pausa sempre é importante, porque delimita espaços que dizem o que não pode ser falado, aquilo que só existe no silêncio. Quantas e quantas vezes a pausa já não foi mais importante que a fala que a antecedeu? Ela acabou sendo um fechamento ou mesmo um encontro. E o momento em que o personagem respira e o expectador o apreende. Curioso é que o personagem não existe na mesma medida e no mesmo plano do real que a vida humana. Em cena, o tempo passa mais lento. Talvez porque, no palco, cada segundo da vida de um personagem seja pensado. Naqueles 40, 50, 60, minutos, um personagem vive uma vida toda , então ele precisa das pausas. Ele precisa dos tempos que permeiam sua existência, às vezes, até mesmo mais do que precisa das falas ou do corpo, para se expressar ao público que o assiste.

Antonin Artaud desenvolveu o conceito de “corpo sem órgãos” para falar do corpo que se recria. Esse corpo não existe no tempo cronológico, nem no tempo lógico, ele existe em um tempo que é só seu, que pertence a Kairós, um corpo que se cria. O corpo sem órgãos não respeita a lógica do pensamento. Ele vai além, ele é capaz de sempre mais do que “a cabeça” pensa que consegue alcançar. Em meu último espetáculo, Casulo de Fogo, com uma encenação muito corporal (e corpórea!) em diversas cenas sustento posições muito pouco confortáveis para meu corpo orgânico segurar e sustentar por muito tempo. Em uma das apresentações, a outra atriz se demorou mais (muito mais!) que o previsto em uma marcação e meu corpo orgânico me dizia que não era mais possível sustentar aquela posição, que ele não dava conta de segurar meu peso naquela posição. Mas eu insisti, mesmo sentindo que perderia o controle de minhas pernas com poucos segundos a mais ali. Deixei de lado o que me dizia meu corpo orgânico e deixei falar o corpo sem órgãos, o corpo liberto das amarras racionais, o corpo que não pensa, mas que faz.

E a pausa delimita essa vida, que em certa medida representa também uma sobrevida - a do personagem. O personagem só existe na pausa. Ele se alimenta da exitação, cresce com a expectativa do expectador, com o deslocamento do público. O silêncio, se bem usado, diz tanto quanto páginas e mais páginas de um texto muito bem decorado e interpretado.

E é nessa lógica da pausa que escapa aos olhos do humano, para existir no tempo do personagem, que o corpo sem órgãos existe. O corpo rompe com os limites e com as barreiras. E eles vazam. Corpo e pausa, estrutura e lapso. Enquanto o corpo composto por órgãos nos vincula à vida orgânica e presos à humanidade, o corpo sem órgãos produz subjetividade para o personagem, produz sua existência, e sujeito morre para que ele viva. É no copo sem órgãos que o teatro alimenta sua cria, dá vida à criação. Embora o desgaste físico e a certeza de que o corpo não aguentasse mais, o corpo sem órgãos não arrebenta - ele suspira entre uma e outra pausa mais longa. Ele resiste.


Talita Baldin

Psicóloga por profissão, artista mais por vocação do que por profissão. Nas horas vagas atua, desenha, e rabisca um verso e outro..
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